Cursando doutorado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a transexual potiguar Leilane Assunção, 28, é a segunda do país a obter tal feito. Convivendo desde nova com o preconceito social por ter nascido "mulher num corpo de homem", ela tem consquistado, através da educação, mais respeito, especialmente no ambiente acadêmico. No entanto, Leilane continuava a ser discriminada nos locais voltados ao público GLS que costumava frequentar. Numa análise breve, Leilane acredita que gays, bissexuais e lésbicas são mais bem aceitos do que os demais gêneros, como travestis, transexuais e transgêneros. E diz que existe homofobia até por parte dos donos de bares frequentados por esse público. Confira a entrevista:
Leilane: "Não tenho um roteiro fiel, mas sempre vou às festas da UFRN" Foto: Ana Amaral/DN
Você costuma frequentar locais destinados ao público GLS?
Não frequento mais a noite GLS, pois acredito que esteja falida. Isso começou a acontecer ainda quando a boate Avesso funcionava. Ela tinha um caráter de coexistência, era uma boate grande e começou a receber muitos heterossexuais e turistas. Com o tempo, o lugar começou a perder a identidade, passando a ser chamado de 'boate clubber'. E isso acabou afastando seu público gay, que era o público fiel, e, posteriormente, fechou as portas.
E quanto aos demais espaços?
Há outros locais destinados a esse público, mas de modo geral são abertos já que o público heterossexual também frequenta. O fato é que os gays não estão se sentindo à vontade. A Vogue é a boate mais antiga e a única que consegue se manter apenas com o público GLS, mas presencei algumas cenas deprimentes e decidi não voltar mais. No geral, foi uma escolha ideológica evitar as boates gays clássicas. Também parei de frequentar alguns ambientes que até evitam assumir essa identidade, mas ficaram conhecidos como 'bares gay', como é o caso do Kafofu. Eu já fui destratada lá. Uma vez, duas amigas, ao se beijarem, receberam a conta. Ou seja, eles recebem um público gay, mas acabam sendo homofóbicos. Para não 'ofender' o público 'normal', evitam que o termo 'bar gay' se perpetue. É uma constatação do ponto de vista intelectual.
Que locais, então, você frequenta?
Sou muito bem inserida nos ambientes 'héteros'. Não tenho um roteiro fiel, mas sempre vou às festas que acontecem na UFRN, como calouradas, eventos no Circo Tropa Trupe e, principalmente, as do Setor II. Gosto muito de um boteco, daqueles bares mais escondidos que servem uma cerveja gelada, independente das pessoas que lá frequentam.
O que falta ao roteiro GLS de Natal?
Esses locais se reconhecerem como tais. O termo 'gay', do latim, remete ao alegre. Por séculos, esteve associado a algo positivo, mas no século XX houve uma estigmatização e o surgimento do discurso da normatividade social de que o gay deve ser discreto e não pode beijar em público. E é isso que deve ser evitado. Falta a esses locais mais harmonia e respeito, principalmente às outras escolhas. Sinto que eles aceitam gays, bissexuais e lésbicas, mas discriminam o restante.
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Edição de domingo, 31 de maio de 2009
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