Após quase dois anos da determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que estabeleceu a possibilidade de perda de mandato para os eleitos pelo sistema proporcional que trocar de partido sem justa causa, a fidelidade partidária parece não ter garantido a representação da democracia e nem foi suficiente para que a classe política respondesse aos interesses dos cidadãos. Embora se mantenham ligados aos seus partidos, muitos parlamentares não seguem a orientação da legenda, o que causa divisões internas e decepções para os eleitores que acreditaram em alguém que dizia seguir uma determinada ideologia partidária.
Luiz Almir se diz algemado a uma ideologia que não concorda e quer mudar Foto: Fabio Cortez/DN/D.A Press
No Rio Grande do Norte existem alguns casos de divisões partidárias, como o de alguns vereadores de Natal, que durante as eleições para prefeito, no ano passado, faziam parte da coligação da candidata Fátima Bezerra, mas apoiaram, ainda que nos bastidores, a candidata adversária, a atual prefeita, Micarla de Sousa. A cúpula estadual do PMDBtambém encontra-se dividida. De um lado, o deputado federal Henrique Alves está afinado com a governadora Wilma de Faria e trabalha para que o partido integre a base do governo. Do outro lado, o senador Garibaldi Alves Filho se mostra contrário a essa possibilidade e está mais afinado com o partido Democratas.
E as divisões não param por aí. Para o vereador Enildo Alves (PSB) essa decisão do TSE deveria ser revista. "Desejo sair do meu partido porque me sinto desprestigiado. Onde fica o alinhamento ideológico partidário? A quem pertence as alianças feitas nos partidos? Acho que a fidelidade até tem um lado positivo, pois quando um governante assumia, havia uma grande debandada de políticos para o partido do governo. E isso veio coibir o oportunismo de alguns senadores que mudavam de lado para se dar bem. Mas cada caso deveria ser visto com cuidado, como o do deputado Rogério Marinho, que conseguiu sair do partido, por alegar discriminação", declarou. Para Enildo, a cúpula do partido se acha dona da legenda efaz alianças que só interessam a ela. "Nas eleições para prefeito no ano passado, isso ficou claro. O que foi feito entre Garibaldi, Wilma, Carlos Eduardo e Fátima já foi pensando nas eleições de 2010. A cúpula pode fazer alianças esdrúxulas e nós somos obrigados a aceitar", desabafou.
O deputado estadual Luiz Almir (PSDB) comunga da mesma oponião e se diz algemado a uma ideologia que não concorda. "A fidelidade tem um objetivo de fortalecer os partidos, mas dentro da nossa realidade está enfraquecendo a democracia. Porque não se pode permitir que seja podado o direito de ir e vir. As pessoas juram fidelidade num altar diante de Deus, e quando menos se espera, elas se separam. As pessoas tem liberdade para mudar de operadora de telefone, de plano de saúde, de estado, país, de mulher. Só não pode mudar de partido", declarou.
A grande reclamação do deputado é quanto a filosofia adotada pelo PSDB, que, segundo ele foi desmanchada e hoje a presidência passou a ser "dona" do partido. "O PSDB era de unidade popular, e hoje não é mais. Quando entrei era uma coisa e hoje é complemente diferente. E eu não tenho nem o direito de discordar, tenho que seguir a filosofia, mesmo sendo completamente contrário ao que eles pensam. Isso é péssimo", desabafou.
O deputado federal Fabio Faria (PMN), coordenador da bancada estadual na Câmara, também discorda da obrigatoriedade de se manter no mesmo partido durante o mandato. "Eu acho que ninguém que está na vida pública pode escolher um partido e seguir o resto da sua vida. Numa empresa, num casamento, numa sociedade as coisas não duram para sempre, imagine na política, onde existem muitas discussões partidárias. O que eu acho errado é a pessoa ser eleita por um partido de oposição e mudar para a situação. Isso é enganar a população", afirmou.
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Edição de domingo, 31 de maio de 2009
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