Fashion Rio abre oficialmente espaço para os afrodescendentes. Modelos comentam a "cota de participação"
Adriana Amorim // adrianaamorim.rn@diariosassociados.com.br
De cada dez modelos na passarela da 15ª edição do Fashion Rio, um é negro. Essa observação parece passar despercebida pelos olhares da platéia e, especialmente, da imprensa, mas o fato representa uma vitória, mesmo que tímida, para os afrodescendentes. Em maio, o Ministério Público de São Paulo e o São Paulo Fashion Week fecharam um Termo de Ajuste de Conduta prevendo cota de participação mínima de 10% para modelos negros e indígenas durante os desfiles. Estando também à frente da semana de moda carioca, o empresário Paulo Borges decidiu repassar a mesma orientação aos estilistas convidados nesta edição do evento, que acontece até hoje, no Pier Mauá, Rio de Janeiro.
Para a modelo Anabela Santos, da Aquastúdio (acima), "a medida é necessária para inserir a figura do negro brasileiro nas passarelas" Foto: fotos: Marcio Madeira/Divulgação
Apesar do número bastante reduzido de negros - se comparado à quantidade de modelos brancos -, nenhum indígena foi visto durante os desfiles do Fashion Rio. Após a coletiva com a imprensa na sexta-feira passada - primeiro dia de evento -, Paulo Borges preferiu manter silêncio quanto a recomendação do MP. "Todo mundo sabe o que eu penso e não quero ser uma influência às pessoas", relatou, apontando benefícios que considera plausíveis, como é o caso da oportunidade do primeiro emprego a muitas pessoas que fazem parte da organização, e não somente aos modelos.
Na edição anterior do Fashion Rio, ocorrida em janeiro, alguns modelos negros chegaram a protestar em silêncio sobre o fato de não serem representados nas passarelas brasileiras. Contudo, parece ter sido a repercussão da declaração, na mídia, de famosos como o cantor Toni Garrido e a jornalista Glória Maria o catalisador para se chegar a uma 'solução', uma vez que essa questão parecia ignorada justamente por nunca ter havido restrições nesse sentido. Vale mencionar que o Brasil tem, em sua população, um total de 49,7% de afrodescendentes e pardos, segundo o levantamento de 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Para a modelo Anabela Santos, 24 anos, que desfilou para a grife Aquastudio, a medida é necessária, uma vez que vai inserir nas passarelas e na mídia a figura do brasileiro negro. "Além de ser 'superverão', o negro é a cara do Brasil. Só que sempre esteve muito mal representado pela moda", opinou. Com oito anos de experiência nas passarelas, Anabela ressaltou que, nesta edição do Fashion Rio, aceitou convite para desfilar como um sinal de apoio à recomendação. "Desta vez, eu vim unicamente por esse motivo".
Outro modelo, Victor Hugo, 25 anos, também vê como positiva a estipulação de uma cota para afrodescendentes e indígenas. Ele, que apenas assistiu aos desfiles, comenta, por outro lado, que os estilistas somente seguiram ao recomendado pelo organizador do evento. "É como se todos tivessem entendido que apenas 10% deve ser a participação de negros ou que esse número está de bom tamanho, quando na verdade é o contrário. Pareceu uma coisa forçada, como se quisessem mostrar que estão fazendo a sua parte, uma espécie de caridade. Se eu fosse o estilista de uma dessas grifes, faria diferente. Eu teria abusado demodelos negros", sugeriu ele, que é modelo fotográfico e de passarela há cinco anos. Outras exigências vêm sendo cumpridas
Em 2007, por causa de problemas de modelos com anorexia, o São Paulo Fashion Week assinou outro Termo de Ajustamento de Conduta, desta vez se comprometendo a cumprir uma série de exigências quanto ao peso e a saúde das jovens, inclusive em relação à idade mínima das modelos, que é de 16 anos. Essa medida acabou sendo acatada também, de forma voluntária, pelos modelos que desfilaram para o Fashion Rio.
Fato esse que tem, sobretudo, deixado as passarelas com um ar mais 'saudável', já que estão mais parecidas com o biotipo do brasileiro. Sem contar que, em inúmeras peças apresentadas pelas grifes, houve um melhor 'caimento', tornando-as melhor apresentáveis.
A semana de moda carioca acontece até hoje, no Pier Mauá. Nesta edição, o evento contou com o desfile de 29 grifes conceituadas e mais 12 novas marcas. Foram arrecadados mais de R$ 9 milhões através do patrocínio do Sistema Firjan, Nívea, C&A, Marisol, Oi, Gol, AOC e Universidade Estácio de Sá. O evento conta ainda com as parcerias do Sesi-RJ, do Sebrae-RJ e da Abit - por meio do Programa Texbrasil, criado em parceria com a APEX-Brasil.
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