Cientistas da Universidade do Colorado em Boulder (Estados Unidos) conseguiram uma prova cabal de que um imenso lago existia na superfície de Marte. Há 3 bilhões de anos, o reservatório de água se estendia pela região de Shalbatana Vallis - um vale com mais de 1,3 mil quilômetros de comprimento, situado na região equatoriana do planeta vermelho. Tinha pelo menos cinco vezes a área do Lago Paranoá, situado em Brasília, era quase 10 vezes mais profundo e permaneceu intacto por alguns milhares de anos até secar. O geólogo italiano Gaetano Di Achille, responsável pela descoberta, visualizou a primeira pista do lago em 2007, utilizando imagens feitas pela Câmera Estéreo de Alta Resolução (HRSC, pela sigla em inglês), a bordo a sonda Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA).
Reservatório encontrado por sonda teria aproximadamente três bilhões de anos Foto:Boulder/Divulgação
Mas a margem do lago só pôde ser detectada alguns meses atrás, quando o Experimento Científico de Imagens de Alta Resolução (HRSIE) orbitou Marte a uma altitude de 320 quilômetros, por meio da sonda Mars Reconnaissance Orbiter, da Nasa (agência espacial americana). "Essa câmera nos permitiu detectar objetos de até um metro na superfície marciana. Com os dados em mãos, finalmente confirmamos a existência do lago, ao detectarmos a antiga linha costeira", contou Gateano, por e-mail, à reportagem.
"As pistas do lago são representadas pela presença de poucos depósitos de sedimentos deltaicos, que se formam na Terra quando um rio invade um corpo de água permanente", acrescentou Gaetano, citando, como exemplos, os deltas dos Rios Nilo e Mississippi. "Com os dados em alta resolução, encontramos as antigas linhas costeiras do lago sobre a superfície desse delta marciano", explicou o autor da pesquisa. A água esculpiu um cânion de 48 quilômetros de comprimento, que desembocou no vale.
Para o geólogo italiano, se Marte alguma vez abrigou vida, certamente os sedimentos do antigo lago são candidatos a uma investigação futura sobre assinatura biológica. "Na Terra, sedimentos de lagos e deltas são os melhores coletores e preservadores de sinais de vida no passado. O material encontrado no lago pode ter enterrado esses indícios", sugere o cientista. Um fato intriga os especialistas: o lago se formou durante uma época na qual acreditava-se que Marte tinha uma superfície fria e seca.
Gateano afirmou à reportagem que, definitivamente, as características vistas no Shalbatana Vallis são análogas às formas geográficas relacionadas ao fluxo de água na Terra. "Nossa reconstrução sugere que esse lago durou pelo menos milhares de anos. Ali, a vida pode ter surgido em uma forma bastantes simples", aposta. O cientista acredita ser possível que o lago e seus sedimentos tenham arrastado materiais biológicos e sedimentos das redondezas, por meio da erosão. Nesse caso, formas vivas teriam sido fossilizadas e enterradas no antigo lago.
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Edição de domingo, 21 de junho de 2009
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