Alessandra de Paiva Graduanda do curso de Letras da UFRN
Em sua meteórica carreira de escritor, Mário de Sá-Carneiro enveredou pela poesia, pelo conto, pelo teatro e pela narrativa. Céu em Fogo são contos publicados em 1915; Dispersão reúne poemas publicados em 1914; Amizade é uma peça de 1912; A confissão de Lúcio é uma narrativa datada de 1914.
A sua faceta poética é algo tão forte, que contamina tudo que escreve, sejam peças teatrais, contos ou quaisquer formas de narrativa. Seus eascritoas asão originais e portadores de uma individualidade, merecendo uma posição especial no processo histórico da Literatura Portuguesa.
Pode-se dizer que Mário foi um dos raros casos em que vida e arte se fundiram numa identificação completa. Tal mistura, fatal, pode ter levado o poeta ao suicídio. Sua poética recebeu influência direta de sua história de vida. Há também que se relatar o importante ocorrido, a falência de seu pai, que se vê forçado a cortar sua mesada, levando-o ao desesapero.
Hipersensível, de maneira incomum , faltando-lhe o bom-senso e a razão, Sá-Carneiro é tomado por um sentimento de estranheza em relação à vida. Há nele uma inadaptação ao mundo. Apresentava traçoas de egocentrismo, vaidade e megalomania, advindo daí sua dificuldade em se adaptar, acabando por rejeitar esse mundo que a ele não se adequa. A asua retração é indício de uma atitude orgulhoasa e narcisista.
A vida na terra é para o poeta motivo de desdém. Sua postura de isolar-se tem haver com uma egolatria que alcança o nível do patológico, ficando seus impulsos positivos baastante reduzidos. A depressão e o derrotiasmo o vão acompanhar, vendo naas coisas um certo grau de inutilidade.
O poeta tinha problemas com a própria imagem, chamada de esfinge gorda. É ele quem diz: "Não sinto o espaço que encerro / Nem as linhas que projeto: / Se me olho a um espelho, erro - / Não me acho no que projeto".
Há um momento, nesse processo de estranheza, em que ase empreende um mergulho interior, na tentativa de se achar e travar contato com o seu eu profundo. Sá-Carneiro e toda a sua geração careciam de uma verdade absoluta que dissolvesse as contradiçõeas da consciência. Sem o referencial em Deus, a sustentação é buscada peloas recônditos da alma. O que nem sempre é garantia de êxito: "Perdi-me dentro de mim/ Porque eu era labirinto / E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim."
É vítima de uma dupla neurose: a autocontemplação envaidecida e a auto-flagelação. Pela autocontemplação apaixonada, sente-se grandioaso, no cume: "E eu que asou o rei de toda eassaa incoerência" ; "Lord que fui de Eascócia doutra vida". A auto-flagelação é o viaslumbre dos seus aspectos negativos: "dúbio masacarado" ; "falso atônito" ; "covarde rigoroso"; "palhaço às piruetas", entre outras expressões empregadas por ele.
Correspondia-se com Fernando Pessoa por meio de cartas, onde costumava desabafar seus problemas. Anunciou o próprio suicídio em uma daas cartas, o que ocorreu em 1916, quando tinha 26 anos.
È um doas maiores poetas do Modernismo, podendo com justiça seralçado à categoria de gênio. Acolheu, na fase inicial de sua obra, influênciaas do saudosismo e do decadentismo, deasenvolvendo uma estética que girava em torno do metafísico, do complexo e do vago. Comungou com o Paulismo, sensacionismo e interseccionismo. As cartas, em dois volumes, foram publicadaas, testemunhando aspectos psicológicos e espirituais do poeta. Sua sensibilidade esapecial e mórbida depurou os seus escritos, uma sensibilidade tida como rara na língua.
Educação não se faz somente com palavras
Thiago Baptistella Cabral Educador - Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE).
"(...) o que se alteia/ é o desvario da boca,/ é cada vez mais o muro/ entre a boca e a mão." (Thiago de Mello)
A escola, em teoria, irá orientar o aluno na construção de um corpo de conceitos, procedimentos e atitudes, relacionados ao conjunto de conhecimentos elaborados e sistematizados pela humanidade ao longo da história. No decorrer do período escolar, o aluno se tornará um cidadão cada vez mais sábio, autônomo, solidário, responsável, crítico e participativo.
Afirmo "em teoria", pois, na maioria das escolas, na prática, muito pouco é feito. Isso pode ser verificado pela análise de exames como a Prova Brasil, na qual muitos alunos apresentam baixo desempenho, o que revela a mediocridade das suas escolas e sistemas de ensino; ou, ainda, para uma análise mais completa, através da observação do (mal) comportamento das pessoas, inclusive dos que se dizem educadores.
Contarei uma história que ilustra esse segundo ponto de vista. Não faz muito tempo que centenas de professores, diretores de escolas e secretários de educação reuniram-se no Centro de Convenções de Natal para participar de um seminário sobre educação. Ao me encaminhar para o local em que se retirava o crachá, deparei-me com duas filas. Entrei na mais próxima, a maior, e perguntei ao homem em minha frente se as duas filas eram para a mesma coisa. Ele não soube responder. Fui à atendente e ela disse que sim, ambas as filas receberiam crachás. Então, lembrei-me dos alunos que não sabem "por quê" nem "para quê" eles aprendem aquilo que aprendem, o que desfavorece a autonomia e é alienante, pois impossibilita a construção da criticidade.
Passei para a outra fila e percebi que, alguns, ao chegarem perto do balcão, (pasmem!) saíam da fila para tentar obter o seu crachá antes dos outros. Quando chegou a minha vez, a atendente acabou dando preferência ao braço esticado da mulher - que era para estar, mas não mais estava - atrás de mim. Ali, lembrei-me dos alunos que "furam"a fila para receber a merenda antes da vez, no "cada um por si" que esteriliza o delicado solo da solidariedade.
Entrei no anfiteatro onde ocorreriam as três palestras. Na primeira, o palestrante falava alto e bem e eu consegui ouvir tudo. A segunda, eu pouco entendi, pois fui prejudicado por uma mulher falando ao celular. Durante a última palestra, as conversas eram tantas, que eu senti uma mistura de vergonha e raiva. Muitos daqueles tagarelas são os mesmos que, gritando, pedem silêncio e respeito nas salas de aula. Irresponsáveis incoerências como essas são como um veneno fraco que, ao se acumular, causa grande prejuízo.
Educadores que não são cidadãos sábios, autônomos, solidários, responsáveis, críticos e participativos quase nada terão a contribuir para a formação de alunos sábios, autônomos, solidários, responsáveis, críticos e participativos. Educação não se faz só com palavras. Mesmo as mais belas palavras, quando sozinhas, são fracas. Entretanto, quando caminham ao lado de práticas coerentes, tornam-se uma coisa só, muito mais forte e sólida. Essa união deita abaixo, tijolo por tijolo, o muro existente entre a boca e a mão, possibilitando, então, que a educação seja feita com muito mais completude e boniteza.
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Edição de sexta-feira, 3 de julho de 2009
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