Ney Lopes Jornalista, advogado e ex-deputado federal
Circulam a toda hora comentários sobre a extraordinária popularidade do Presidente Lula, que atinge o percentual de 80% de apoio popular.
Reconheço o valor científico das pesquisas, se não manipuladas. Na atividade política divido os efeitos de pesquisas em curto e longo prazo. Curto prazo seriam os números atuais sobre a popularidade de Lula. Longo prazo as projeções eleitorais para 2010. As primeiras merecem fé. As segundas significam ilusões de ótica, quase sempre viciadas pelos interesses de quem as contrata.
Não invalido a popularidade presidencial. Se chegou aonde chegou há inegável mérito. Além das idéias e programas próprios, contribuiu muito o que "Lula não fez". Senão vejamos.
Lula não alterou o plano real, a estratégia econômica brasileira, que completou 15 anos. Aliás, fui o presidente da Comissão Mista (deputados e senadores), que aprovou a proposta no Congresso Nacional e relator o então senador José Fogaça.
Lula não revogou a lei de responsabilidade fiscal, destinada a estabelecer normas de conduta ao administrador público, com a finalidade de alcançar equilíbrio nas contas públicas, através de gestão transparente e planejada do patrimônio comum (LC 101/00).
Lula não desfez a idéia inicial da bolsa família, idealizada pela Sra. Ruth Cardoso ("Comunidade solidária") no início de 1996, embora a metodologia atual seja diferente da originária.
Lula não mudou a política monetária do Banco Central do Brasil e nomeou presidente o Sr. Henrique Meireles, intransigente defensor do FMI, eleito em outubro de 2001 deputado federal pelo PSDB de Goiás e ex-presidente de um dos maiores bancos internacionais do mundo - o Banco de Boston.
Lula não deixou de viajar intensamente para projetar a imagem do Brasil no exterior e ativar o comércio internacional.
Lula não eliminou o regime de câmbio flutuante, criado pelo ministro da Fazenda Pedro Malan. A medida permitiu até hoje determinar a taxa de câmbio pelas forças do mercado e as intervenções na cotação da moeda pelo BC serem ocasionais, com o objetivo de conter desordenamentos nas condições do mercado.
Lula não revogou a proteção dada às patentes, marcas e avançou com a lei de Inovação (10.973/2004), que concedeu incentivos à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo.
Lula não discordou da flexibilização da CLT e apresenta como uma das metas a atingir no seu governo.
Lula não se afastou das boas relações com os Estados Unidos, ao ponto do Presidente Obama, durante a recente reunião do G-8 na Itália, pedir-lhe ajuda para convencer o Irã a não usar energia nuclear para fins bélicos. Na Casa Branca, Lula é "o cara"!
Lula não sepultou o Proálcool como alternativa energética mundial e incentivou programas semelhantes de uso de energias limpas e renováveis.
O que Lula "não fez" decepcionou, certamente, alguns dos seus correligionários. O bom senso prevaleceu. A maioria do seu partido - o PT - inegavelmente avançou e reformulou posições. Independente de posição política é justo reconhecer novas conquistas na condução do governo - além daquilo que não foi feito -, sobretudo em época de crise, como a atual.
O compadrio político
Gaudêncio Torquato Jornalista
A foto não poderia ser mais reveladora: o chefe da horda de delinquentes abraça o sabonete sob o sorriso bicudo de um tucano. A estampa, que ganhou a primeira página dos jornais, mostra o presidente Luiz Inácio confraternizando com seu ex-rival, o hoje senador Fernando Collor de Mello, e os epítetos acima foram gentilezas trocadas entre ambos, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 17 de dezembro de 1989. Pressentindo a derrota, Lula acusou Collor de ter sido vendido como sabonete, no que foi agraciado pelo adversário com o título que sugere conluio com a bandidagem. Recorde-se que o alagoano venceu o pleito depois de exibir em sua campanha depoimento eleitoral de Miriam Cordeiro, ex-namorada do candidato petista, acusando-o de tê-la pressionado a abortar a filha. Mais que perdão, o gesto afetuoso entre os presidentes de hoje e de ontem denota a adoção do preceito do cardeal Mazarino, sucessor de Richelieu na corte francesa, especialista em malandragem: "Nãofaças nada que traia tua cólera. Não procures te vingar, finge não te teres ressentido, e espera tua hora."
O palanque de Maceió, onde estavam também, na última quarta-feira, a ministra Dilma Rousseff e o governador Teotônio Vilela Filho, ilustra, de modo irretocável, a política tupiniquim. Retrata, à perfeição, a liturgia de simulação e dissimulação. A crítica à política de compadrio praticada por governos anteriores, feita pelo presidente, teve a intenção de preservar Collor, a seu lado, o qual deve ter-se sentido o mais justo dos governantes. Guerreiro dos tempos em que se fez São Jorge brandindo a espada contra os marajás, o "impichado" ex-presidente foi comparado a Juscelino Kubitschek, eis que, segundo Lula, ambos se mostraram sensíveis aos dramas do povo. Quanta demagogia!
O espetáculo das Alagoas teve mais de um ato. O presidente, como sempre, cumpriu "à risca" o comportamento do comandante supremo da Nação ao lembrar que, na proximidade do ano eleitoral, não podia falar de eleição. Balela. A promessa, na presença da ministra Dilma, não durou um átimo de segundo, pois a seguir arrematou: "Só vou dizer uma coisa para vocês. Podem escrever. Eu vou fazer, eu vou ajudar a eleger a minha sucessora neste país." Será que os juízes do Tribunal Superior Eleitoral estavam com os ouvidos atentos? E se estivessem, de que adiantaria? A Alta Corte só age quando acionada.
Trata-se de um ignorante ou oposicionista quem ouviu da boca de Lula mote eleitoreiro. Nem o anfitrião Téo Vilela, governador alagoano, do mesmo partido dos postulantes à candidatura presidencial pela oposição, José Serra e Aécio Neves, diria ter percebido o gogó de campanha. Se lhe perguntarem, eis uma possível resposta: o presidente cometeu uma tirada jocosa, um agrado aos participantes da inauguração da adutora em Palmeira dos Índios. O rubor não subirá às faces, até porque nenhum sinal de ética resiste às benesses que jorram das fontes do poder. Eis aí o conluio do compadrio, exatamente o pacote que Luiz Inácio combateu naquele palanque. Os extremos na política se tocam quando os interesses se aproximam. E interesses levam em conta o tamanho do cheque. A historinha é conhecida. Ao ser perguntado quanto poder era o bastante para si, o político respondeu: "Um pouquinho mais, um pouquinho mais."
Ademais, a política brasileira tem um corpo separado dos membros. A situação explica, por exemplo, a distância entre as decisões das cúpulas partidárias e as ações das bases. Nos Estados, as alianças partidárias para 2010 serão desenhadas pela régua frankensteiniana. A amizade literalmente collorida entre Lula e Collor é apenas um aperitivo do que virá pela frente.
E como a opinião pública reage diante de situações tão canhestras, como a de inimigos figadais que após duros embates se transformam em amigos cordiais? O substantivo que pode resumir o estado de espírito de muitos cidadãos é asco. E como a maioria política reage diante do asco? O verbo já foi declinado pelo deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), ao dizer que "se lixava" para a opinião pública.
Somente restapinçar a névoa do tempo para acompanhar Confúcio em visita à sagrada montanha chinesa de Taishan. Lá encontrou uma mulher cujos parentes haviam sido mortos por tigres. O sábio perguntou: "Por que não se muda daqui?" Veio o lamento: "Porque os políticos são mais ferozes que os tigres."
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Edição de domingo, 26 de julho de 2009
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