Por trás da empanada onde se manifestam os personagens do mamulengo há um universo mágico superior à representação artístico-artesanal mostrada à platéia: são os mamulengueiros - personagens de sua própria história. São em maioria analfabetos de letras e demonstram certa ingenuidade aliada ao talento do improviso. Tudo evidenciado no ritual cênico, na arte manual, na voz e invenções manifestadas no movimento dos bonecos. Naquele cenário simples está guardada uma tradição de caráter popular cada vez mais extinta no Brasil. Restam pouquíssimos hoje distribuídos em zonas rurais dos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.
O mamulengo é uma das mais populares expressões da arte nordestina Foto: Artur Barbosa/Divulgação
Uma iniciativa promovida pela Capitania das Artes tem debatido o tema e cedido espaço a estes brincantes com o Encontro de João Redondo do Rio Grande do Norte. A programação segue até amanhã no Marina Travel Praia Hotel, Praia dos Artistas, sempre das 8h às 12h. O evento é parte do processo desenvolvido pela Associação Brasileira de Teatro de Bonecos para tornar o João Redondo um Patrimônio Cultural do Brasil. Independente da intenção do evento, estudiosos do folclore questionam até onde o encontro entre mamulengueiros tradicionais e outros praticantes cuja essência foge do caráter genuíno do folclore é prejudicial a esta manifestação artística.
No Estado do Rio Grande do Norte o mamulengo é chamado popularmente deJoão Redondo. A trama segue um roteiro tradicional e é desenvolvida toda de improviso até o desfecho da vitória do herói sobre o vilão. Estão incluídos na estória uma variedade de personagens, como cangaceiro, padre, bichos, etc. Os maiores representantes do João Redondo no Estado são Chico Daniel e Zé Relampo, ambos falecidos. Segundo o folclorista Deífilo Gurgel - responsável pela descoberta dos dois - os filhos de Chico Daniel são praticamente os únicos no Estado a manterem viva a tradição genuína deste teatro popular. Eles participarão do evento junto com pelo menos mais oito bonequeiros.
Deífilo lembra que a Fundação José Augusto costumava realizar encontros de João Redondo na década de 70. Naquela época havia apenas cinco ou seis mamulengueiros potiguares catalogados. "Saí em campo para procurar esses artistas durante alguns anos e achei 16 apresentadores autênticos, todos gente do povo, moradores de vila e povoados, como Chico Daniel, que aprendeu a arte com o pai, que por sua vez aprendeu com o avô". Muitos deles morreram ou abandonaram o ofício, sem incentivos do poder público - caso de Zé Relampo, que viveu na miséria e foi morto por atropelamento antes de cometer suicídio. Outros como o filho de Josivan de Daniel, filho de Chico Daniel, tentam manter a tradição mas enfrentam muitas dificuldades como a falta de apoio.
Segundo Deífilo Gurgel, os mamulengueiros de hoje diferem muito daqueles brincantes "iniciados nos mistérios da miséria", como citou o poeta e escritor Franco Jasiello,falecido há alguns anos. São artistas formados em universidades, mais capacitados intelectualmente, sem a ingenuidade característicada manifestação espontânea e eminentemente popular, como requer o folclore. "Se baseiam no trabalho do potiguar Chico Daniel, que faleceu há dois anos. Não se pode considerar um bonequeiro popular. Não vejo a força criativa, desesperada daquela gente do povo. Vejo uma coisa mais escolar, primária. Falta autenticidade".
Questionado da importância do encontro, O folclorista potiguar Deífilo pondera: "Não sei. Tenho medo dessa mistura do João Redondo popular e essa expressão mais erudita. O que está situado entre popular e erudito, como disse Mário de Andrade, é popularesco". E continua: "Diante dessa sociedade de consumo entretida com a televisão e a cultura de massa, paulatinamente a cultura do povo tem sido engolida cada vez mais pela erudita".
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Edição de sábado, 5 de setembro de 2009
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