O Rio Grande do Norte está a um passo de sediar o Centro Internacional de Física da Matéria Condensada (CIFMC), instalado na Universidade de Brasília (UnB) desde a década de 1980. O processo de realocação está em fase final de negociação entre a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e o Ministério da Ciência e Tecnologia, e a pretensão é que o local se transforme em Centro Internacional de Física, com o objetivo de dinamizar o intercâmbio científico e a cooperação com entidades e pesquisadores do exterior. Um dos responsáveis por essa conquista iminente é o PhD em física Liacir dos Santos Lucena, professor titular da UFRN. Em 1995, depois da tentativa quase bem sucedida de oficializar, junto ao ministério, o Centro Internacional de Sistemas Complexos, ele levou a ideia adiante e, mesmo com limitações financeiras, o Centro continuou de forma "virtual". O trabalho foi um dos diferenciais avaliados pelo ministro Sérgio Rezende para a escolha de uma nova sede do CIFMC. Nesta entrevista exclusiva, Liacir ressalta os benefícios que a novidade trará para o desenvolvimento do RN.
Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press
"O Rio Grande do Norte tem uma vocação natural para a indústria da inteligência" - Liacir dos Santos Lucena - físico
Que motivos levam a UnB a deixar de sediar o Centro?
Foi o conjunto de dificuldades internas surgidas na Universidade de Brasília para o funcionamento regular do Centro Internacional de Física da Matéria Condensada (CIFMC), criado 20 anos atrás, nos moldes do Centro Internacional de Trieste (Itália). Embora com uma abrangência menor, dada sua especificidade, quando comparado com o Centro de Sistemas Complexos, o CIFMC pode apresentar hoje uma larga folha de serviços prestados ao país, com inúmeras conferências internacionais e com um nítido impacto no progresso da física no Brasil.
Em anos recentes o CIFMC enfrentou vários entraves dentro da UnB, o que prejudicou a sua missão nacional de promover o desenvolvimento da física da matéria condensada e servir como elo de ligação com grupos de pesquisa no exterior. Na minha opinião, o ministro percebeu este problema e procurou uma solução. O país precisava com urgência de um Centro de alto nível, dinâmico e ágil. Não podia ficar esperando indefinidamente. Outras universidades foram então pensadas como alternativas para sediar este centro Internacional. Uma delas, naturalmente, era a UFRN, onde existe o Centro Internacional de Sistemas Complexos, embora de uma forma virtual.
O senhor comentou que em outro momento houve disputa entre instituições. Por que a UFRN foi a escolhida?
Realmente, várias alternativas foram estudadas pelo grupo de trabalho instituido pelo MCT. Creio que a concorrente mais forte da UFRN foi a Universidade Federal da Paraiba. A UFPB, juntamente com a Prefeitura de João Pessoa, fez uma proposta quase irrecusável de instalar o Centro Internacional de Física junto à Estação Ciência de Cabo Branco, no alto de uma falésia. Um lugar paradisíaco. O que pesou a nosso favor foi a ação decisiva do Reitor José Ivonildo do Rego. Tive a chance de estar presente à reunião entre o reitor e o ministro Sérgio Rezende em Brasília, quando a decisão foi tomada, e posso atestar o forte empenho do nosso dirigente.
Ainda contribuiu para a vitória da UFRN o fato de que tínhamos funcionando, de uma forma virtual, o Centro Internacional de Sistemas Complexos. Outro ponto favorável é a competência dos quadros científicos da UFRN, particularmente no Departamento de Física Teórica e Experimental. A Universidade, como um todo, possui mais de mil pesquisadores com o nível de doutorado. A Cidade de Natal também constituiu um elemento diferencial.
Que características da cidade foram levadas em consideração?
Natal é uma cidade agradável, com boa qualidade de vida, capaz de oferecer um ambiente de trabalho estimulante e criativo. Exatamente o que atrai os cientistas. Uma cidade acolhedora e confortável como a nossa, serve de chamariz até para alguns detentores do Premio Nobel, que poderão fixar residência aqui. A cidade dispõe de um grande parque hoteleiro, uma infra-estrutura turística e de conexões aéreas com o exterior. Isto é indispensável para estabelecer um polo científico de nível internacional. Torna possível a realização de grandes conferências internacionais, aefetivação de atividades de intercâmbio científico e a fixação aqui de pesquisadores de elevada competência.
O que o Centro representará para o desenvolvimento da ciência no estado?
Sem nenhuma dúvida, representa uma oportunidade única de dar um salto de qualidade não apenas na ciência, mas até na economia. O Centro tem um caráter dinamizador e catalisador, e certamente terá reflexos positivos em vários setores da Universidade e também fora do campus. Haverá permanentemente eventos, visitantes, pós-doutores, cursos de alto nível, um fluxo constante de cérebros e muitas pontes com as universidades e os laboratórios mais atuantes do Brasil, da Europa, dos Estados Unidos e de outras partes do mundo.
O Rio Grande do Norte tem uma vocação para a indústria da inteligência, isto é, para promover o seu desenvolvimento econômico e social com base na ciência e tecnologia. Os exemplos do Vale do Silício na California (na proximidade da Universidade de Stanford) e do Cinturão da Rota 128 ao redor de Boston, onde existe a maior densidade de universidades nos Estados Unidos, mostram que o funcionamento de instituições de elevada competência científica tem como consequência natural o aparecimento, ao redor dessas instituições, de indústrias de alta tecnologia e a deflagração de um processo de desenvolvimento. Tenho certeza de que isto ocorrerá no Rio Grande do Norte.
Como deverá ser a estrautura do Centro Internacional de Física?
O Centro terá um Comitê Científico Internacional onde haverá também representantes da UFRN e do MCT. Passará a integrar a estrutura do Ministério de Ciência e Tecnologia através da associação com uma ou duas unidades do MCT. Provavelmente, a associação será feita com o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e/ou com o Laboratório Nacional de Computação Científica. Fará parte também da estrutura do Ministério da Educação, pois será um órgão da UFRN. Dentro da universidade, haverá uma cooperação com o Departamento de Física Teórica e Experimental e outros departamentos.
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Atualizado em 11|10|2009
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