Economia Edição de terça-feira, 27 de outubro de 2009
Marcada pela bagunça
Falhas na seleção da Polícia Rodoviária Federal são questionadas pelo MPF, concurseiros e donos de cursinhos
Luiz Freitas // luizfreitas.rn@diariosassociados.com.br
A empresa organizadora de um concurso público deveria cuidar para que tudo desse certo, do edital à divulgação do resultado. Mas, pelo visto, o conceito de organização passou longe daqui. No último dia 18, foram realizadas as
Para Rogério de Andrade, que fez o concurso, há grandes chances de anulação do processo por fraude Foto: D Luca/DN/D.A Press
provas de agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF). A seleção atraiu 103 mil candidatos em todo país para 750 vagas com salário inicial de R$ 5.238,94. Só que o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF/RJ) apura supostas irregularidades que teriam sido cometidas durante a aplicação das provas, elaboradas e aplicadas pela empresa terceirizada Funrio.
Na data da prova, o clima estava tenso no Rio de Janeiro - ainda na véspera, traficantes haviam derrubado um helicóptero da PM e diversos ônibus foram queimados. O "Dia D" do concurso ganhou espaço no noticiário: atrasos, confusões, troca de provas, modificações no edital e reclamações. Terminadas as provas, choveram denúncias e críticas em fóruns de discussão na Internet. O caso mais emblemático ocorreu na Universidade Gama Filho, aonde candidatos chegaram a filmar a baderna e postar vídeos no Youtube. Além dos recursos, cujos resultados estão previstos para o dia 4 de novembro, candidatos e proprietários de cursinhos já ingressaram com ações na justiça pedindo a anulação do certame.
Natal
Os eventos no Rio de Janeiro até podem ser explicados, mas não se encontram motivos para que algo semelhante acontecesse em Natal. A engenheira civil Kattiane Borges, 28 anos, relata inúmeras falhas ocorridas em sua sala. "A fiscal entregou as provas antes do sinal e permitiu que os candidatos lessem as provas antes da autorização para iníciá-las. Nem todos tiveram seus celulares recolhidos. No final, as fiscais pediram que os candidatos encerrassem as provas, mas dois candidatos continuaram, um concluindo o gabarito e outro fazendo a redação, apesar da minha reclamação". Ainda, apenas em sua sala os rascunhos da redação não foram recolhidos e a fiscal orientou que fosse colocada o número de inscrição na redação, o que não foi seguido em outras salas. No mesmo dia, Kattiane encaminhou um relato ao MPF/RN sobre as irregularidades. "O procurador irá analizar o conteúdo e se achar procedente pode instaurar uma investigação. Acredito que muitos conseguiram se beneficiar dessas falhas".
Quem também reclama é o servidor público Rogério de Andrade, 38. "Há grandes chances de esse concurso ser anulado, deram muita margem para fraudes na aplicação das provas". O concurseiro Rafael Seabra, 25, afirma ter ficado chocado quando a sua fiscal simplesmente disse que todos já deviam conhecer as regras e que ela não iria apresentá-las novamente. "Senti que eles não tinham controle de nada ali". Rafael aponta que não havia qualquer tipo de fiscalização dentro dos banheiros. "Os candidatos poderiam simplesmente ficar discutindo questões lá dentro. Não se sabe se isso ocorreu ou não".
A PRF declarou que todas as falhas no processo seletivo são de responsabilidade da Funrio. Já o serviço de atendimento da organizadora disse que não tinha autorização para fornecer qualquer informação sobre o certame. O MPF/RJ, que interviu sobre a possibilidade de múltiplas inscrições no concurso fazendo a Funrio devolvero dinheiro aos candidatos, ainda não se posicionou oficialmente sobre as denúncias. Até lá, o concurso continua valendo. E as incertezas dos candidatos também.
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