Colunas Edição de terça-feira, 27 de outubro de 2009
Opinião
Democracia, pra que te quero?
Pablo Capistrano - Filósofo
Existem algumas palavras que são submetidas a um rigoroso e sistemático processo de "designificação". O processo é simples, um termo qualquer começa a ser usado para designar coisas absolutamente divergentes. Aos poucos, o termo começa a ser utilizado para designar qualquer coisa e como qualquer coisa não é, especificamente, coisa nenhuma o termo esvazia e murcha, perdendo o seu sentido.
Nossa contemporaneidade fez isso com a palavra "amor", com o termo "ética" e, aos poucos, começa a avançar sobre a ideia de "democracia". O caso exemplar da crise de Honduras mostra como isso acontece. Naquela situação, tanto o presidente deposto, quanto os golpistas que o depuseram, apelaram para a "democracia" para justificar suas práticas políticas, criando um vazio semântico que forçou muita gente boa, a tentar reencontrar algum atual sentido oculto, nesse velho termo, que o ocidente herdou da Grécia de Péricles.
Talvez haja, junto à grande dificuldade de se compreender claramente o que significa "democracia", a evidência de certo medo que o termo ainda provoca. Olha que esse medo não é novo. Dizem que Platão em algum lugar teria afirmado: "quanto mais próximo da democracia mais perto do caos". O fato é que mesmo aqueles que não compreendem o sentido da palavra democracia, e mesmo os que temem seus efeitos, hoje, usam o termo como justificativa para seus atos. O que acontece com a democracia nos dias atuais é que ela se tornou uma unanimidade inócua, um tropo retórico que serve para temperar o discurso de conservadores e radicais, liberais e comunistas, direita e esquerda, torturadores e torturados. Não importa o seu lado, não importa o conteúdo de seus atos, não importa as opções políticas, governantes de todas as cores apelam para a democracia e ajudam a produzir sua designificação.
Nas empresas, especialmente as públicas, fala-se muito, por exemplo, em "gestão democrática". Há até algum esforço honesto em tentar listar uma série muito bem formulada de procedimentos, práticas e posturas administrativas que se enquadrariam em um modelo democrático de gestão. O problema é que a nebulosidade do conceito contribui para que qualquer prática de qualquer gestor seja enquadrada em uma ideia muito pouco clara de democracia. Como qualquer coisa pode ser democracia, qualquer atitude pode ser justificada em seu nome.
Como o poder se espalha pelo cotidiano das relações pessoais, viajando para atingir o corpo e a mente dos indivíduos, a ideia de uma gestão democrática ganha conotações apavorantes em lugares que mantém práticas administrativas centralizadas e baseadas em um conceito rígido de hierarquia e comando. Mas, mesmo nesses espaços, o termo democracia não deixa de ser usado, porque ele serve bem, hoje, a qualquer senhor.
A questão é que para se apostar na democracia é preciso não ter medo do caos. É preciso confiar na autonomia dos indivíduos e na capacidade do grupo de gerir suas próprias decisões a partir de uma harmonia superior do todo, que é produto do ruído borbulhante das partes. Apostar na democracia é confiar na descentralização da administração, na disseminação do poder, na fragmentação das decisões. Antes de mais nada, é acreditar que é possível haver eficiência na liberdade e que a ordem pode emergir de um caos fundamental que pluralize o mundo sem dissolve-lo.
Mentira!
Critina Hahn - Psicóloga
Mentira!Deixei a verdade escondida na intenção de me defender. Eu disse textualmente que nada mais me surpreenderia... Menti porque talvez desejasse acreditar, menti porque precisava disfarçar... Disfarçar minha indignação, encobrir minha revolta, dissimular minha angústia. Confesso que mentir tem me sustentado no lugar protegido pela concordância, um lugar onde não existe tanto conflito, onde sou encarada, pelo menos às vezes, como uma "pessoa normal".
Mentira! Disse que não me comove mais a dor do próximo, que não posso fazer nada, que não tenho responsabilidade pelo destino de outrem. Hoje eu menti quando defendi o desejo de vingança, quando me deixei levar pela raiva e me arrastei no pensamento negativo. Hoje, eu menti quando disse acreditar que tudo poderia ser diferente... Menti porque o mundo interno é meu, mas o mundo externo está repleto de pessoas estáticas, absolutamente acomodadas na zona de conforto que as livra do transformar. Hoje, eu menti quando disse meias verdades, quando adaptei meu discurso ao que é permitido pela "falsa censura", pelo "falso moralismo".
Mentira! Afirmei que tenho fé no esclarecimento das pessoas em relação ao referendo da legalização da venda de armas. Menti porque defendo um ponto de vista com unhas e dentes, mas a realidade me confunde e a escassez de alternativas me desespera muitas vezes. Menti porque estou cansada de falar sozinha, esgotada do diálogo entre mim e minha consciência. Mentir, às vezes, alivia o sentimento de sustentar uma verdade na solidão da atitude correta. Mentir ilude a quem ouve, provoca a sensação de cumplicidade, inclui você no grupo da maioria, mas no íntimo apenas engana o desejo real pela verdade. Quando falamos a verdade, estamos vulneráveis à crítica e ludibriados pela mentira, ficamos em eterna colisão com nossa retidão.
Hoje, eu menti e isso me deixou especialmente triste. Pensei que pudesse suportar o "jeitinho brasileiro", respirar e contar até um milhão e cem diante da incompetência insistente dos "serviços". Mentira quando disse que não me incomodo com o falatório desumano dos fofoqueiros de plantão, mentira quando abri um sorriso no momento em que alguém desejava ardentemente não me ver... Percebo agora que sou uma grande mentirosa em busca da "sobrevivência na convivência humana"... Mentiras acreditadas como verdades, verdades desacreditadas pela mentira, descrença factual das mentes verdadeiras...
Mentira! Mentira por não saber mais como dizer a verdade sem ferir a mentira do próximo, sem ser rotulada de "louca", sem sofrer as conseqüências de defender a ética diante do que "normal-mente" acontece, defronte da lei que rege os "fora da lei". Mentira! Falei que amanhã desejo buscar mais forças, mais é hoje que preciso mergulhar no âmago de mim mesma... Porque a verdade é que sei que existe garra, determinação e a mentira é que desconheço onde me encontrar...
Mi(n)to ou não, me fio nos ditados populares "mentira tem perna curta", " a verdade sempre aparece" para terminar esse texto... Dessa forma, vou dormir desejando encontrar verdade nos meus sonhos, vou dormir para amanhã "a-cor-dar" a verdade do realizar...
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