Autor de massacre em base americana era ridicularizado e não queria servir no Afeganistão
Parecia um aviso. "Se um homem-bomba matar 100 soldados inimigos porque eles foram pegos desprevenidos, isso seria considerado uma vitória estratégica. Sua intenção não é morrer por causa de algum desespero. O mesmo pode ser dito dos camicases no Japão. Eles morreram para matar os inimigos da pátria. A intenção é o principal e Alá sabe o que for melhor." O texto também faz menção a "uma granada atirada contra um grupo de soldados americanos" e de um militar que tira sua vida para salvar os colegas. Foi publicado em maio passado no site de relacionamentos Scribd.
O suposto autor, o major Nidal Malik Hasan, esvaziou seu apartamento em Killen (Texas) - 169 dias depois -, partiu para a base militar de Fort Hood, tomou café e comprou batatas fritas na loja de conveniências 7-Eleven, dentro do complexo do Exército. Às 6h20 (hora local), foi filmado pagando a refeição. Vestia trajes muçulmanos brancos. Sete horas e 10 minutos depois disparou a esmo no Centro de Processamento de Prontidão de Soldados, na ala oeste.Antes de matar 12 soldados e um civil, teria gritado "Allahu akbar!" ("Deus é o maior") - frase pronunciada por muçulmanos em situações de júbilo ou em batalhas. Ao menos 28 pessoas ficaram feridas, duas em estado gravíssimo.
A maior carnificina da história em uma base norte-americana só parou quando os policiais Kimberley Munley e Mark Todd atiraram contra Hasan, no momento em que ele recarregava o par de pistolas semiautomáticas. A sargento Munley chegou a ser atingida na coxa. Até a noite de ontem, o estado de saúde do assassino era estável, ele respirava com a ajuda de ventilação mecânica. O chão do Centro de Processamento de Prontidão de Soldados ficou coberto por sangue, corpos, balas e feridos clamando por socorro. Os motivos do ataque permanecem obscuros. De acordo com o jornal The New York Times, um primo contou que Nidal estava "mortificado" pela possibilidade de ser enviado ao Afeganistão. O filho de imigrantes de uma pequena cidade palestina escolheu o Exército contra a vontade dos pais e, por meio do serviço militar, galgou a carreira de psiquiatra.
Testemunhas revelaram que ele teria começado a mudar de ideia sobre o Exército anos atrás, quando começou a ser atormentado por outros soldados pelo fato de ser muçulmano. Em entrevista ao Correio, por telefone, Arshad Qureshi - presidente do Centro da Comunidade Muçulmana, em Silver Spring (Maryland) - contou que orou por várias vezes ao lado de Hasan com frequência. "Ele era um homem pacífico e temeroso ao profeta Maomé. Ele costumava fazer suas orações aqui e parecia ser uma pessoa comum, tímida", descreveu. "Jamais imaginei que ele fosse capaz de algo assim." Segundo Qureshi, o homem que espalhou a morte em Fort Hood não conversava com outras pessoas. "Ele apenas orava e vivia. Ele atendia regularmente as orações dos muçulmanos e sempre fazia isso", acrescentou.
O líder da congregação islâmica revelou que Hasan jamais lhes transmitiu a impressão de que estaria sofrendo discriminado por colegas. "Ele também nunca nos contou que iria ao Afeganistão", disse. Qureshi acredita que todas as pessoas são pacíficas "até terem uma razão para crerem no contrário". "Creio que Hasan nascera em uma família muçulmana e não se convertera recentemente", explicou.
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu que as pessoas não tirem conclusões precipitadas sobre a tragédia e ordenou que as bandeiras da Casa Branca e de outros prédios do governo federal fossem baixadas a meio mastro. "Esse é um tributo modesto a aqueles que perderam suas vidas, enquanto se preparavam para arriscar suas vidas pelo país", declarou. O mandatário se reuniu com Robert Mueller, diretor do FBI (polícia federal dos EUA), para discutir detalhes da investigação. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, anunciou que Obama visitará Fort Hood nos próximos dias. (Rodrigo Craveiro)
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Edição de sábado, 7 de novembro de 2009
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