Um curso de música em pleno sertão da Paraíba parecia improvável há cerca de 10 anos atrás. O tempo e muito trabalho mostraram que a palavra cooperação foi fundamental para a instalação e o bom funcionamento do Instituto Cultural Casa do Béradêro, expoente na educação de crianças, adolescentes e jovens de Catolé do Rocha. Em entrevista ao Diário de Natal, o seu idealizador e fundador, o músico e presidente da Fundação Cultural de João Pessoa, Chico César, fala sobre a atuação do projeto Gente Que Encanta em sua cidade natal e da experiência que começou com a música, se ampliou para a cultura e promete transformar Catolé em um polo exportador de arte.
O público conhece seu trabalho como músico e compositor de sucesso e vem acompanhando, há cerca de seis meses, sua atuação no comando da Fundação Cultural de João Pessoa. O que poucos sabem, entretanto, é sobre sua ligação com o Instituto Cultural Casa do Béradêro, em Catolé do Rocha. Quais questões lhe motivaram a investir na implantação desta ONG?
Há cerca de 10 anos, a Irmã Iracy, minha professora de música, encabeçava e levava sozinha o Projeto Gente que Encanta. Eu havia conseguido projeção nacional e internacional com meu trabalho musical. E eu já conhecia o projeto Bate-Lata de Campinas (SP), tendo inclusive estabelecido algumas colaborações com eles, e também o pessoal da Orquestra dos Meninos de São Caetano (PE). Inspirado nessas experiências, senti que poderia dar visibilidade, apoiar financeiramente o projeto de Irmã Iracy pelo menos nos primeiros passos, ajudá-la a conceituar. Logo de imediato, ao saber de nossas intenções e do trabalho que já vínhamos desenvolvendo, um renomado médico da cidade chamado Dr. Antônio Benjamim me procurou para oferecer o prédio que viria a se tornar nossa sede. Esse foi um momento muito importante para nós, pois o edifício necessitava de uma reforma radical e nos unimos em torno dela, trazendo novos colabores como a arquiteta Cristina Evelise. Paralelamente fomos conseguindo apoios como da Fundação Vitae, que aportou recursos para a aquisição do primeiro grande lote de instrumentos, e também de franciscanos alemães. Professores da Galícia, na Espanha, tomaram conhecimento do nascente Instituto Béradêro e convidaram uma parte de nossa orquestra para que se apresentasse por lá e também em Portugal. Foi uma experiência gratificante para os que puderam ir pelo contato estabelecido com garotos de língua portuguesa com outros acentos, outras brincadeiras, outra musicalidade.
Foto: Aline Leite/Divulgação
O desenvolvimento das atividades do Instituto também se deve a ajuda de voluntários. Parece que a população local tem muito carinho pela ONG. Como você vê a ação destes voluntários?
A colaboração local e a troca de experiências com grupos de cidades vizinhas como Pombal, Sousa e Cajazeiras tem sido de suma importância para o processo de amadurecimento do grupo. No início, tivemos problemas de compreensão de nosso trabalho na cidade pois para muita gente se tratava do "coralzinho de Irmã Iracy" e depois da "escola de Chico César", como se não fosse algo de responsabilidade comunitária. Creio que ainda hoje há um certo equívoco no meio do empresariado local, no sentido de pertencimento. São poucos os que não se eximem de participar e colaborar. Por outro lado, entre os jovens de todas as classes sociais encontramos pessoas dispostas a colaborar, a estender os braços, a botar a mão na massa como se diz. Para se ter uma ideia, há uma verdadeira fraternidade do Instituto Béradêro com o projeto Xique-xique, estabelecido na zona rural da cidade de Catolé do Rocha.
Qual tem sido seu envolvimento com a instituição ao longo dos anos?
Sou idealizador e fundador, fui seu presidente e também principal mantenedor por muitos anos. Vejo agora com alívio que o Instituto tem encontrado novos parceiros em diversas áreas, incluindo administração e pedagogia. É maravilhoso ver o pássaro criar asas e ensaiar seus próprios voos. Continuo como incentivador. Sei que sou uma referência positiva para os jovens que procuram o Instituto. Pra onde vou, em minhas viagens pelo mundo inteiro levo o nome do Béradêro como divulgador do projeto mas também em busca de novas parcerias e de experiências que possam trazer novas luzes pra gente.
Recentemente a Petrobras virou patrocinadora da Casa do Beradêro, através do Projeto Gente Que Encanta. O aporte financeiro e institucional era o que faltava para o crescimento da ONG?
A chegada da Petrobras, pelo vulto dos recursos e a possibilidade de organização que nos dá, é um salto. Mas, sem subestimar a importância desses recursos, não podemos esquecer que a Petrobras é uma marca associada à ética nas ações sociais e uma empresa muito querida pelos brasileiros. Estarmos ligados a seunome é extremamente positivo, nos avaliza perante a opinião e nos cria estofo para o estabelecimento de novas parcerias com empresas e instituições igualmente gabaritadas.
Atividades como lutheria, informática e cursos de música como violino, violoncello, etc. estão sendo ministrados e, pelo que consta, são os únicos daquela região do Sertão. Você conseguiria descrever o impacto do projeto naquela localidade?
Catolé do Rocha, desde os anos 50 funcionou como um polo cultural do Sertão para os estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e mesmo Pernambuco por congregar vários estabelecimentos escolares importantes como o Colégio Normal Francisca Mendes, fundado por freiras alemãs fugidas da segunda grande guerra, o Colégio Técnico Dom Vital, fundado por padres capuchinhos e, ainda, o Colégio Agrícola, depois fechado pela ditadura militar. Ficou conhecida como a "Cidade que lê". Imagino que a partir da instalação do Instituto Béradêro, ao lado de outras iniciativas, como o projeto Xique-xique, a cidade começa a resgatar sua vocação cultural. Os novos cursos trarão alunos de diversas regiões desses estados e funcionarão como polo de atração e trocas de experiência. Creio que aí está algo que nem podemos ainda dimensionar os seus resultados.
Qual o futuro que você espera e prevê para o Instituto?
Espero que o Instituto Béradêro, do mesmo modo como aboliu de cara o assistencialismo de suas metas e centrou na educação e sensibilização através da arte, dê um novo salto no sentido de criar consciência e viabilidade profissional para seus educandos. É importante que, muitos dos que aprenderam com ele, tornem-se seus novos mestres e possam sobreviver do trabalho dentro da própria comunidade.
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Edição de segunda-feira, 16 de novembro de 2009
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