Brasil Edição de segunda-feira, 23 de novembro de 2009
A visita da polêmica
Presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, chega hoje ao Brasil e desperta reações controversas
Silvio Queiroz
Em casa de metalúrgico, um filho de ferreiro não há de se sentir estranho, nem mesmo na primeira visita. Mahmud Ahmadinejad, o sexto presidente da República Islâmica do Irã, chega hoje a Brasília para uma visita de Estado tão breve quanto significativa, a primeira trocada entre os dois países em mais de 100 anos de relações. Ahmadinejad ficará em Brasília por menos de 24 horas, mas sua trajetória autoriza a supor que não lhe faltará tempo para colecionar afinidades com o anfitrião, a quem ele já se refere como "amigo e companheiro", embora tenham se encontrado apenas de passagem, um par de vezes.
Lula já manteve diálogo com líder iraniano em evento nos Estados Unidos. Foto: Ricardo Stuckert/Pr
O discutido chefe de Estado iraniano se identifica sobremaneira com Lula, o torneiro mecânico que virou presidente. É um pouco como ele próprio se enxerga, nascido há 53 anos na zona rural da província de Semnan. Garmsar, próxima a Aradan, é um povoado com tradição na manufatura de tapetes, ofício que emprestou ao hoje presidente o sobrenome original, trocado pelo pai quando o quarto e mais ilustre de seus sete filhos tinha apenas quatro anos. Saburjian é como são chamados em farsi aqueles que tingem os fios que os tapeceiros trançarão em suas obras. Ahmad, o chefe da família, não queria carregar a marca da origem social - interiorana e subalterna - na mudança para Teerã. Chegou à capital rebatizado como Ahmadinejad, que significa "da estirpe de Ahmad".
O nome se refere também ao profeta Mohammed, ou Maomé. A mãe de Mahmud Ahmadinejad, Khanom, era uma seyyede, título atribuído no mundo islâmico àqueles que se reivindicam descendentes do profeta. E foi temperando as doses de orgulho social e de religiosidade popular que o jovem se criou na cidade grande. Em 1976, aos 20 anos, ele classificou-se no exame de admissão à universidade como 132º colocado entre 400 mil inscritos. Escolheu cursar engenharia na Universidade de Ciência e Tecnologia, e foi como estudante que aderiu de corpo e alma ao fervor revolucionário inspirado na virada da década pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.
Ahmadinejad aderiu à RevoluçãoIslâmica de fevereiro de 1979, precisamente o período em que o colega Lula liderava os metalúrgicos do ABC paulista em uma das históricas greves que ajudaram a enterrar o regime militar e a lançar o sindicalista na arena política. É curioso que o presidente iraniano abrace hoje um discurso no mínimo "anticapitalista", recheado de menções à redenção do trabalho diante do capital. O flerte com o marxismo, a despeito da matriz filosófica materialista, é um traço que aproxima o xiismo iraniano - ao menos algumas vertentes - da Teologia da Libertação latino-americana. Aí reside também uma porção substancial das afinidades entre o presidente iraniano e seu colega Hugo Chávez: "socialista", "revolucionário" e "amigo do povo" são expressões que frequentam o discurso político de ambos.
Diferentemente do pai, o jovem Mahmud aprendeu a cultivar um forte sentido de pertinência às raízes rurais e humildes, fez delas precioso capital político quando decidiu lançar-se à carreira política em Teerã, no início desta década. Ele carregava uma larga folha de serviços prestados à Revolução Islâmica, desde o alistamento voluntário na milícia Basij logo após a invasão do país pelo Iraque de Saddam Hussein, em 1980. Nos oito anos de guerra, Ahmadinejad serviu como governador em regiões, mas também construiu vínculos com o estamento militar, cuja importância na estrutura do regime só fez crescer desde então. Foi veterano também da Guarda Revolucionária, a elite das forças armadas, e recrutou meninos para pelotões suicidas lançados contra as tropas iraquianas.
Diplomacia
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva defende que a diplomacia será mais útil que o isolamento da República Islâmica e justificou o diálogo com Ahmadinejad - "em prol da paz" - até diante do presidente israelense, Shimon Peres, que fez uma visita ao Brasil há duas semanas. Para o Brasil, esta pode ser uma oportunidade de fortalecer a imagem de mediador internacional, o que, por sua vez, respaldaria sua campanha na busca por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
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