Estudo mostra que experiências vividas durante a fase mais profunda do sono - como sons - ficam guardadas na memória
Paloma Oliveto
O que acontece com a nossa memória enquanto dormimos? A ciência já conhecia boa parte da reposta, mas faltava investigar se somos capazes de armazenar informações durante a fase do sono profundo, quando estamos completamente adormecidos. Um grupo de pesquisadores da Northwestern University matou a charada. Mesmo sem perceber, o cérebro processa tudo o que está em volta e é capaz de fazer com que a pessoa se lembre, mais tarde, do que se passou. Ainda que sequer tenha consciência disso.
Pablo/ON/D.A Press
Um dos autores do estudo, o psicólogo Ken Paller, diz que a descoberta reforça novas pesquisas que associam a formação da memória à fase do sono profundo e não somente ao REM (sigla em inglês para movimento rápido dos olhos), última etapa do sono, que concentra a maior parte dos sonhos dos quais conseguimos nos lembrar pela manhã. "Estamos começando a perceber que o sono profundo é, na verdade, o momento-chave do processamento da memória", disse.
"O estudo confirma o que muitos já suspeitavam: nessa fase, o cérebro está ativo e intensifica a produção de memória", falou à reportagem o principal autor da pesquisa, John Rudy, pós-doutorando em neurologia pela Northwestern University. De acordo com ele, um estudo anterior mostrou que a exposição a estímulos externos pode influenciar o processo da memória durante o sono, mas o atual conseguiu provar especificamente quando isso acontece.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores trabalharam com sons e imagens. O grupo participante do estudo foi exposto a 50 imagens que estavam localizadas aleatoriamente na tela do computador, igual a um jogo de memória. Para cada objeto, havia um som correspondente: a taça de vinho, por exemplo, estava associada ao barulho de vidro se quebrando. Ainda acordados, aprenderam a memorizar o local das imagens, sempre usando como parâmetro os sons que as acompanhavam. Depois de 45 minutos, eles foram para uma sala escura e ficaram deitados. Lá, eram monitorados por eletrodos, que mediam as ondas cerebrais.
Quando o aparelho mostrou queestavam dormindo e passavam pela fase do sono profundo, os pesquisadores escolheram 25 sons dos 50 que eles haviam escutado. Quando acordaram, os participantes relataram que não se lembravam de ter ouvido absolutamente nada. Porém, ao serem confrontados novamente com as imagens, tiveram mais facilidade de localizar aquelas associadas aos sons que escutaram durante o sono do que as demais.
Para Rudy, o mais importante do experimento foi descobrir como exatamente o cérebro processa as informações, de forma que possam ser armazenadas e lembradas tempos depois. De acordo com o pesquisador, a partir dos resultados, pode ser possível intensificar as pesquisas sobre reativação das conexões neurais responsáveis pela memória. Algumas doenças, como o mal de Alzheimer, fazem com que pessoas percam a capacidade de se lembrar de fatos e nomes.
Descanso:
O organismo comanda o processo do sono a partir da melatonina, um hormônio produzido pelo cérebro que, a partir do pôr do sol, começa a ser acionado, "avisando" que já é hora de se preparar para dormir. No começo, a temperatura cai cerca de 2ºC, e a pressão arterial fica mais baixa. É o início do cochilo. Ao todo, são cinco fases do sono identificadas pela ciência.
1ª fase - adormecimento. Dura até 15 minutos e funciona como intermediária entre estar dormindo e acordado. O cérebro produz ondas irregulares e rápidas, a tensão muscular diminui e a respiração fica mais leve
2ª fase - sono leve. A temperatura e o ritmo cardíaco diminuem, assim como a respiração. É a fase limite entre dormir e acordar.
3ª fase - nessa hora, o corpo começa a entrar em sono profundo. As ondas cerebrais diminuem o ritmo.
4ª fase - é hora do sono profundo, objeto de estudo da pesquisa da Northwestern University. O organismo libera hormônios ligados ao crescimento e inicia o processo de recuperaão de células e órgãos.
5ªfase - a atividade cerebral se acelera e os sonhos são formados. O cérebro guarda as informações importantes recebidas durante o dia e elimina aquelas desnecessárias.
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