Colunas Edição de segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Editorial
"A Índia é um estado socialista. Nós caminhamos para o socialismo. O que estamos fazendo, desde já, é socialização". (in A Índia é uma democracia capitalista" - 11.3.1962) - Assis Chateaubriand
A poluição dos outros
A chefia do Itamaraty andava nos últimos dias em expectativa. A delegação brasileira designada a representar o país na Conferência sobre Mudanças Climáticas, em começos de dezembro próximo, chegou certamente a preparar a sua agenda, que se destinava a um encontro onde o mundo buscaria fórmulas com o objetivo de sair do atual imbroglio diplomático sobre a defesa da vitalidade da biosfera. Entretanto, a Conferência de Copenhague, para a qual o mundo se vem preparando há meses, não vai mais acontecer, porque os grandes do planeta se julgaram sem condições para discutir os seus temas a fundo, com proveito para a humanidade. A fotografia mundialmente exposta do presidente Barack Obama ao lado do presidente chino Hu Jintao é o retrato de uma situação mudada por excelência. Ali não haverá um traço, sequer, da China dos mandarins que todos no mundo extraiam uma lasca. Sob um grande manto de novas ideias, desenvolveu-se nas últimas duas décadas uma nova China com o reconhecido vigor industrial, ajudada por quem - pela ex-União Soviética? - não, pela pecúnia e a tecnologia capitalistas, ocidentais. Ali esbanjava forças notórias uma China competitiva nos mercados, uma China desenvolta em negócios, uma China agora parceira daquele país que outrora chamava de casa do diabo. Esse país surpreendente inaugurou nova era na economia, ao crescer oito, dez e até mais porcentos ao ano de maneira a ficar em condições de suplantar a Alemanha e o Japão no ranking das maiores potências industriais. Essa China admirável tornou-se também a segunda maior potência poluidora do mundo. Hoje, conquistado o nicho onde se espremem no palco estreito as demais potências, exibe uma musculatura que permite aos respectivos dirigentes dizer que polui quem pode, daí não abrindo mão do falso direito de frear as defesas da biosfera com as quais se comprometeram inúmeros países, incluso, com o estusiasmo das boas causas, o Brasil. Daí que China e Estados Unidos se juntam de mãos dadas, a fim de dizer ao resto do mundo que eles não têm pressa nesse trabalho benemérito de defender o mundo que sofre com os gases que impunemente sopram suas fábricas e motores. Nã há paradoxo mais terrível do que este, na medida em que, fossem outros os tempos, um desses dois países líderes chegariam a apontar para o outro armas providas de dispositivos atômico-nucleares. Diz-se ainda à boca pequena que China e Estados Unidos não se desuniram quanto a este ponto vital - poluir podem, desde que haja tempo para se adequarem às regras que as Nações Unidas legislem debaixo de suas instruções e interesses. E, de Barack Obama, o que dizer de prático? Que está sendo tão pragmático quanto possível, numa situação para a qual não concorreu com um metro cúbico de CO2 nem com meio kilotom de pós atômicos. Não se sabe, ainda, se esse mundo assim tão contraditório merece a honra de ser vivido sem que se pague tão alto preço.
Charge
Arte: Samuca/DP/D.A Press
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