Informática Edição de quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Nem tão simples assim
Kindle chega com proposta arrojada, mas falha em questões simples, como conexão e recursos visuais
Alysson Lisboa Neves Do Correio Braziliense
Existe algo mais prático do que um livro? Sem cabos, você o guarda onde quiser, marca onde parou de ler, faz anotações e o leva para todo lugar. Pode também compartilhá-lo e trocá-lo no sebo. O Kindle, leitor eletrônico de livros comercializado pela Amazon em escala mundial, prometia ser ainda mais fácil, simples, usual. Mas não é bem assim. A reportagem testou o Kindle Wireless de seis polegadas, modelo comercializado desde outubro no site da Amazon e que oferece praticidade e uma conexão direta em mais de 100 países por meio de sua rede, a Whispernet.
Intenção é possibilitar a leitura em instrumentos eletrônicos Foto: Jackson Romanelli/EM/D.A Press
Enquanto a matéria era produzida, o aparelho tentava, sem sucesso, sincronizar e atualizar as páginas dos jornais e revistas baixados no endereço da Amazon. Uma mensagem insistente aparecia, em inglês: "Seu Kindle não consegue fazer a conexão agora. Por favor, tente mais tarde". Em contato com a Amazon, via e-mail, a empresa respondeu que bastava reiniciar o aparelho e tudo funcionaria. Ledo engano. A conexão falhou novamente e permaneceu assim durante dois dias.
O aparelho tem um minúsculo teclado Qwerty com 45 teclas, além de nove botões que comandam todas as funções numa tela de 9cm por 12cm. São dois alto-falantes e uma tecla para controlar o volume. Com tantos botões, a navegação acaba sendo confusa. A sensação que se tem ao manusear o Kindle é de falta de controle sobre ele.
Para testar a leitura de arquivos, enviamos uma página de jornal, em formato PDF, para a máquina e recebemos algo bizarro: um arquivo com textos embolados, frases com palavras coladas e que não seguem uma sequência lógica. Todos os elementos gráficos - legendas, créditos das fotos, títulos, subtítulos e tudo mais que se viu pela frente - foram misturados. O leitor fica perdido.
Existe uma grande diferença entre o layout de um jornal em papel e sua versão Kindle. Um periódico no suporte eletrônico conta com poucos recursos visuais, como olhos gráficos ou intertítulos destacados. Algumas poucas fotos em preto e branco aparecem ao longoda edição, mas é só isso. Um fio separa uma matéria da outra e o título ganha algum destaque. Para melhorar a eficiência do leitor eletrônico, a Amazon terá um árduo caminho pela frente. Os leitores de livros digitais ainda precisam encontrar o modelo perfeito, que não transforme o passeio em uma história dramática.
Incluir muitas funções em um e-book pode transformá-lo em um computador portátil - e essa não é a função. Outro problema é a dificuldade em percorrer capítulos, folhear páginas e escolher uma específica. O Kindle não permite que você tenha real dimensão de uma obra no papel. Passear de maneira rápida por toda a publicação requer esforço e paciência. Na função text-to-speech (leitura em voz alta), o usuário pode escolher a velocidade da leitura e ainda, se preferir, entre uma voz feminina ou masculina para narrar. Porém, esse recurso, por enquanto, só serve para os textos em inglês. Testamos a função em um texto em português, mas a experiência foi curiosa: o usuário ouve um norte-americano tentando falar o português.
Pontos fortes
Além da capacidade de armazenar mais de 1,5 mil exemplares na memória, e acesso direto a uma livraria virtual (a Amazon conta com um acervo de mais de 350 mil publicações), o Kindle oferece outra facilidade: caso você perca o equipamento, os livros podem ser resgatados e copiados para um novo aparelho, sem custo. A tecnologia da tinta eletrônica (e-ink) dá a sensação de que estamos lendo um livro em papel.
Desenvolvida pela Amazon, a tinta torna a leitura mais confortável, diferente da feita em uma tela de PC. Se você gosta de ouvir música enquanto lê, basta copiar suas canções preferidas no formato MP3 para a pasta music do aparelho. O aparelho também envia para você um trecho de qualquer livro de seu acervo, para degustação. O preço médio da publicação é US$ 9 (R$ 16).
Quando você compra o leitor da Amazon, são criadas duas contas de e-mail na empresa, seunome@kindle.com, para comprar e receber publicações, diretamente em seu Kindle, a US$ 0,99 por megabyte, e seunome@free.kindle.com, para receber arquivos pessoais gratuitamente.
Funciona assim:
1) Envie um e-mail para seunome@free.kindle.com com um arquivo .DOC ou PDF anexado, por exemplo
2) Em poucos minutos você recebe um e-mail com o arquivo que você enviou na extensão .AZW
3) Ligue o cabo USB no seu computador
4) Descarregue o arquivo e salve-o dentro da pasta documents no Kindle
5) Pronto, você já pode começar a ler o texto
Pagar para quê?
Há pouquíssimas publicações em português na loja do Kindle. Estão presentes alguns clássicos, como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, a US$ 3 (R$ 5, aproximadamente). Seria uma pechincha, se não saísse de graça em www.dominiopublico.gov. Além das obras completas de Machado de Assis, pode-se encontrar poesias de Fernando Pessoa e livros de Joaquim Nabuco, entre outros. O aparelho tem capacidade de armazenar mais de 1,5 mil livros: publicações brasileiras ainda são poucas para compra pelo site da Amazon.
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