Colunas Edição de quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Opinião
Anatomia de um trabalho penoso
Fátima Cardoso Professora, Pedagoga e Coordenadora Geral do SINTE/RN
AConferência Especial sobre a situação do pessoal docente, convocada pela UNESCO em colaboração com a OIT em Paris, 1966, recomenda entre outros pontos o cuidado com as condições de trabalho e com as doenças oriundas do trabalho. No Canadá estudos recentes mostram que 64% dos docentes adoecem no trabalho de estresse. A esse fator adicionam-se as demasiadas horas de trabalho e a ausência de perspectiva na carreira por falta de capacitação.
Preocupados com as enfermidades em 25 países, a Internacional da Educação e UNICEF, reuniu 39 sindicatos internacionais para lançarem programas que abordassem cuidados com o VIH/SIDA, como prevenção a novas infecções nos docentes e alunos. Estes programas têm por objetivo provocar os governos a incorporem nos seus países políticas de saúde em favor da saúde universal do Trabalhador em Educação.
A Internacional da Educação observando os diagnósticos das causas das doenças destacou que a jornada de trabalhodos educadores de 40h/aula semanais e ofensivas a sua saúde. Observou ainda que são raros os casos de doenças em países que parte desse tempo é dedicada ao trabalho extra classe. A UNESCO destaca também como carga horária de trabalho as horas extraordinárias que não são pagas e têm efeitos particularmente nocivos sobre as condições de trabalho e de SAÚDE DOS EDUCADORES. Segundo a UNESCO torna-se mais acentuada as possibilidades de estresse do trabalho realizado pelos professores em "condições ditas normais", pelos gestores.
Relata ainda a Internacional da educação, que os péssimos salários levam os educadores a dedicarem, em média, 14h/semanais com atividades não remuneradas, além das 40h voltadas para as atividades educacionais. Neste regime se enquadram 49% dos Trabalhadores em Educação. Soma-se a essa carga de trabalho, cerca de 8h/semanais gastas com trabalho da escola feito em casa, totalizando uma jornada semanal média de 62 horas, segundo a UNESCO e a Internacional da Educação.
Essa jornada excessiva tem contribuído para o aparecimento mais cedo de doenças do trabalho, tais como Problemas de coluna - causados pelo grande número de horas em posições incômodas e uso de equipamentos não ergonômicos; Problemas cardíacos - provocados pelo stress; Calo nas cordas vocais - oriundos das excessivas horas de fala em voz alta; Doenças psíquicas e neurológicas - provocadas muitas vezes pelo trabalho que exige a atenção ao público, conflito nas relações, excesso de responsabilidade e das exigências burocráticas; Varizes - provocadas por problemas circulatórios diversos e hospedeiros pelo tempo longo que o profissional passa em pé. Irritação e alergia - provocados pelo pó de giz e ambiente insalubre nos prédios das escolas.
A UNESCO chama a atenção para a jornada média internacional que está calculada entre 30 a 35 horas semanais nas escolas. Destas, 18 a 24 horas, são de atenção direta aos alunos. Apesar dessa diferença, considera que essa jornada não é ainda suficiente para atender às tarefas extraclasses, de autopreparação, preparação e correção de provas e de exercícios, preenchimentos dos diários de classe, elaboração das médias, etc.. .
O quadro de doenças atinge 2,5 milhões de Trabalhadores em Educação em atividade profissional, exigindo empenho dos governos com a saúde dos profissionais. Muito do desconhecido paira no trabalho educacional e escolar. Os tensionamentos permanentes desafiam a mística do educador, seus segredos e paixões, seu afeto e razão, seus sonhos perdidos e o esmero da profissão. Encontramos sempre os educadores buscando re-construir sua identidade e resgatar sua auto-estima.
A confluência desses dados mostra a complexidade da profissão, sua evolução por falta de política que devolva sua autonomia, autoridade. Denunciando o descaso do poder público, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação - CNTE realizou em parceria com o Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília, uma pesquisa sobre as condições de trabalho e saúde mental dos Trabalhadores em Educação.
Cerca de 1.800 (um milhão e oitocentos mil) educadores, num período de dois anos e meio, foram investigados por uma equipe interdisciplinar de 15 (quinze) pesquisadores em 1.440 (mil quatrocentos e quarenta) escolas com a aplicação de um protocolo composto de 15 (quinze) escalas de investigação sobre trabalho e relações sociais, 7 (sete) escalas clínicas, 1 (uma) de burnout, 1 (uma) de alcoolismo, além de dados sobre a vida e trabalho.
Essa pesquisa revela que 48% dos educadores no Brasil sofrem de exaustão emocional. Contraditoriamente 90% estão satisfeitos, pois a grande maioria é comprometida com seu trabalho. Ressalta a pesquisa, como entender um trabalho assim, um trabalho em que coabitam, siameses, o prazer e o sofrimento, a realização e a perda de si mesmo, o inferno e o paraíso. Essa anatomia determina que coexistem um trabalho penoso e um profissional teimoso.
Causos antológicos
Valério Mesquita Escritor
01) Segundo Bira Rocha o senador Geraldo Melo é quem melhor formula, engendra, neste estado. Tem um poder de convencimento invejável. Após a sua eleição e a derrota de Wanderley Mariz para o Senado, cogitou-se a indicação deste para a secretaria do Interior e Justiça. Ao receber o convite Titi Mariz deu um choque irreprimível. "Vou ser enterrado vivo lá. Aquela secretaria não tem nada. Manoel de Brito me disse que é um oco só!!". De repente, Marluzia Saldanha, mágicos e alquimistas foram convocados para ministrarem passos magnéticos no ex-deputado. Mas, Wanderley resistia. E depois de checar de novo Brito aí é que as coisas pioraram. Só havia uma maneira, agora, chamar Geraldo Melo. Na sua casa de Lagoa Nova instalou-se o cenário. Wanderley, calado, começou a escutar Geraldo que formulava, engenhava tal um aceso guru em transe mediúnico. Geraldo Melo dissertou sobre a importância política de uma secretaria do Interior, do primado e da sublimação da justiça, dos valores da cidadaniae a sua prevalência nos dias de hoje. Essa secretaria era a mais importante do seu governo. Titi, já exausto de tanta teoria, fez sinal para Geraldo parar e com aquele seu tique nervoso característico, soltou de uma só vez: "Eu aceito". Bira tem toda razão.
02) Lá pelos anos oitenta, Severino Azevedo, vulgo Lelinho, prefeito de Bom Jesus, erigiu uma estátua em homenagem ao então governador José Agripino na mesma praça central da cidade onde, também, estava chantado o busto do venerado padre João Maria. Certa noite, o ex-deputado Carvalho Neto resolveu dar uma entrada em Bom Jesus para visitar o amigo prefeito. Sua esposa Terezinha, que o acompanhava, filha do saudoso ex-deputado Antônio Bilu, pediu ao marido para ir até o busto do santo milagreiro. Ao cabo de alguns minutos, quando voltava, Carvalho viu a sua mulher contrita ajoelhada ante a estátua do ex-governador. Sem ao menos atentar para o fato de um perdoável equívoco, Carvalho esbravejou com a mulher pelo ato profano de rezar aos pés de um político. Eo pior, seu adversário. Erro de estátua.
03) Walter Leitão, ex-prefeito de Açu, era bonachão, espirituoso e irreverente. Certa vez, retornava à noite de uma viagem ao lado do seu motorista. Cansado, tirava uma soneca quando foi despertado repentinamente pela trepidação da estrada. "Quem é o corno fela da puta prefeito desse lugar?", perguntou Walter, irritadíssimo. "Já estamos em Açu e o senhor não é o prefeito?". Respondeu, obrigatoriamente, o motorista.
04) Avelino Matias, vulgo "Meu Pai", é uma das melhores figuras folclóricas da política potiguar. Dentre muitos causos de que foi protagonista, colhi um, ocorrido aqui em Natal. Estava em uma reunião fechada com mais umas dez pessoas ligadas à ex-Funabem quando, de repente, a sala foi invadida por um poluente, ou seja, um silencioso gás intestinal. Todos se entreolharam e procuraram disfarçar tapando discretamente o nariz. Mais alguns minutos, novamente, nova bufa sorrateira incomodou os presentes. E veio aquele constrangimento muito próprio nessa situação.Mas, aquela reunião em sala fechada parecia fadada à sabotagem. Com pouco tempo surgiu o terceiro e terrível flato ainda mais podre. De repente, ante os perplexos e circunstantes funcionários, levanta-se Avelino e sentencia em voz alta e pesarosa: ""Meu pai", "minha mãe", eu sou um homem doente. Para não trazer mais problemas eu vou me retirar". O alívio foi geral.
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