Colunas Edição de sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Editorial
Imprevidência não cai do céu
São Paulo tem se prestado nestes dias ao papel de gigantesco painel do mau exemplo de gestão pública que vigora de norte a sul do país, com o predomínio da imprevidência e da incompetência no planejamento urbano. Situações extremas, aceitáveis em condições de catástrofes naturais ocorridas em extensos períodos de tempo, algumas raras vezes num século, viraram rotina.
Todos os anos é a mesma coisa. Ou pior: a cada ano se agravam os transtornos, somam-se mais mortos e desabrigados, cresce a conta dos prejuízos. Só durante ou depois das tragédias se fala em prevenção. Finda a temporada de chuvas, as providências necessárias caem no esquecimento.
Planos de ordenamento urbano são letra morta. Cursos d'água não recebem o devido tratamento. Áreas ribeirinhas, morros e encostas são ocupados. A impermeabilização do solo é caótica, sem maiores nem menores preocupações com a drenagem. A negligência com o lixo contribui para entupir as já insuficientes bocas de lobo e galerias de águas pluviais. Com a capacidade de escoamento estrangulada, rios saem dos leitos, avenidas e ruas viram rios, casas e carros são inundados, pontes ficam submersas e o cidadão, ilhado.
Como no caso presente do paulistano Gilberto Kassab, os prefeitos culpam os céus. Agora, com o argumento extra de que o aquecimento global torna o quadro mais complexo. A parcela de responsabilidade do efeito estufa serve mais como desculpa esfarrapada do que justificativa plausível. Mas a situação tende, sim, a se agravar. As chuvas mal começaram, muitas tempestades virão até as águas de março fecharem o verão, o malfeito não será reparado da noite para o dia.
Para além das enchentes urbanas, há alertas da Agência Nacional de Águas (ANA) para o risco de transbordamento de represas, em especial na Região Sul, onde os reservatórios estão com capacidade máxima. A Defesa Civil deve se preparar para o pior. Populações sob ameaça precisam ser postas de sobreaviso, prontas para qualquer contingência. Como tem sido nas últimas décadas, a hora é de prontidão dos responsáveis pelo atendimento emergencial.
Para o futuro, a questão é de mudança de mentalidade. Das autoridades - nas esferas federal, estadual e municipal, nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário - e também do homem comum. Respeito ao meio ambiente, está provado, é recurso de sobrevivência de primeira ordem. Exaurida, a natureza impõe ao ser humano a lei do bateu, levou. Portanto, toda inteligência e
eficiência no gasto público. Obras, apenas, já não resolvem. Ou se dá um basta à especulação imobiliária e se ordena de fato e de direito a vida nas cidades, ou nos conformemos todos com o caos nosso de cada dia, com a solidariedade alheia na hora das tragédias, com a ausência do Estado, enfim.
Charge
Arte: Samuca
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