Hábitos como conversar na calçada e pedir algo na casa ao lado ainda resistem na capital
Erta Souza // ertasouza.rn@dabr.com.br
Cadeiras na calçada, amigos ao redor e uma boa conversa. A cena faz você recordar de uma cidadezinha do interior? Nada disso. Essa é a realidade de muitos bairros de Natal, mesmo com seus 774.230 habitantes (segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE). Apesar do rescimento e desenvolvimento, a capital potiguar - conhecida mundialmente por suas praias e sol forte durante boa parte do ano - ainda guarda hábitos do passado.
A cabeleireira Lenízia (E) e a estudante Katiana adoram um papo na calçada Foto: Eduardo Maia/DN/D.A Press
Os novos moradores que todos os dias decidem deixar o interior do Rio Grande do Norte em busca de uma vida mais digna na capital levam hábitos das pequeninas cidades. E a conversa no final de tarde com familiares, amigos e vizinhos é um desses costumes. Mas quem pensa que os natalenses reprovam o hábito está enganado. Mesmo com o crescimento da cidade nos últimos anos, eles têm se rendido ao antigo costume. É o caso da cabeleireira Lenízia Caldas Ferreira que, apesar de ter passado dos 60 anos (ela não gosta de revelar a idade), ainda trabalha e não pretende deixar a profissão tão cedo.
Desde a adolescência ela cuida da beleza de suas clientes durante seis dias da semana, então para manter a alegria e o entusiasmo ela conta que não abre mão de todos os dias se reunir com amigos e vizinhos para uma boa conversa no final de tarde. "Já deixei de participar de muitos eventos para atender minhas clientes, mas desse momento de descontração não abro mão. Todos os dias sento embaixo dessa árvore com minha família e amigos para uma boa conversa".
Nascida em Natal e moradora do Conjunto Santarém há 24 anos, Zona Norte, Lenízia conta que aprendeu a procurar momentos de prazer no pouco tempo que sempre teve para se divertir e diz que com o papo diário encontrou uma boa saída para aliviar a tensão do dia a dia.
Ela ainda acrescenta que a conversa na "porta de casa" é uma ótima opção para quem deseja conhecer os vizinhos. "Conheço todos os meus vizinhos e me entendo bem com eles. Hoje entro na casa de todos com intimidade até para pedir algo emprestado. O melhor de tudo é que sei que eles também sabem que podem contar comigo para qualquer problema".
Amizades
A conversa na calçada não é restrita aos mais velhos. Esse hábito proporciona também a integração entre gerações. A estudante Katiana de Souza, que mora no bairro há 12 anos, conheceu a cabeleireira no salão participou de uma roda de conversa. "Como estudo e trabalho não tenho muito tempo, mas sempre que posso estou por aqui com eles. A sensação de ter sempre gente conhecida por onde passamos é muito boa", disse.
A cabeleireira ressalta a importância dessa integração entre os vizinhos para a criação dos filhos. "Devido a nossa amizade, nossos filhos cresceram juntos e são amigos até hoje. Isso é importante para a nossa boa convivência e também para a segurança deles. Quando nossos filhos precisam sair sabemos sempre com quem estão e que são pessoas confiáveis", afirma a cabeleireira.
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Edição de domingo, 13 de dezembro de 2009
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