Ney Lopes Jornalista, advogado e ex-deputado federal
Continua a saga da política local e nacional. Escândalos de corrupção aqui, palavrões acolá; absolvições antecipadas, sem defesa prévia, a cata de votos; condenações também sem direito a defesa prévia, em nome da ética e da probidade.
Na última quinta, o presidente Lula, ao participar em São Luiz de "comício antecipado" a favor da sua candidata Dilma Rousseff, disparou mais uma vez os "palavrões" freqüentes no seu dia a dia: "eu quero saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra".
Em agosto, o presidente usou o mesmo repertório de palavrões em público para passar uma descompostura no seu Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, que de cabeça baixa ouviu em Itaipu, na assinatura do acordo hidrelétrico com o Paraguai: "vai t..., Lobão! Não me venha com esse papo. Vocês querem que o Brasil repita com os países pobres o mesmo imperialismo dos Estados Unidos com toda a América do Sul. Vai t...". Sem atender as advertências dos auxiliares mais próximos, Lula continuou o discurso de apoio ao "companheiro galanteador", Fernando Lugo, presidente do Paraguai e afirmou: "o Brasil tem uma responsabilidade muito grande com os vizinhos, ainda mais com o Paraguai, teve a guerra. Vocês querem f... o Lugo, mas não vão".
Outra vez, em entrevista Lula introduziu a metáfora "sifu" na análise política brasileira, para justificar o seu otimismo em relação à crise social atual. Afirmou que diante da gravidade da doença, o aconselhável é o médico dizer que irá recuperar o paciente e não que o paciente "sifu" !!!
Em 2008, na campanha de Micarla de Souza em Natal, usou expressões ásperas, consideradas pelo senador José Agripino no Senado Federal como "tentativa de calar e intimidar a oposição". Na oportunidade, o então presidente, Garibaldi Alves, aliado do governo federal defendeu o presidente e condenou o senador José Agripino por "tripudiar sobre os vencidos, que não é o melhor caminho dos vencedores". Hoje são pré-aliados, de novo. Faltasó Garibaldi ter a certeza de que Rosalba ganhará a eleição, para "atirar na testa" e tentar reeleger-se senador, junto com o seu pai. A estratégia está agora facilitada, pelo enfraquecimento recente de Henrique Alves, alvo de homenagens afetuosas e fraternas no seu aniversário, até de possíveis correligionários em 2010.
Na sucessão presidencial, o PT lançou oficialmente a candidatura de Dilma, no seu último programa gratuito em rádio e TV. Abertamente, o partido usou o espaço da mídia com Lula e a candidata à presidente da República. A idéia subliminar foi a de que o país está bem e precisa continuar assim. A ministra-candidata associou sua imagem a todos os programas sociais do governo, mesmo sendo de outros ministérios.
Por muito menos do que isto, a senadora Rosalba Ciarlini e a TV Tropical foram condenados pela veiculação de entrevista nas eleições de 2006. Alegou-se violação ao artigo 36 da lei 9.504/97. O próprio Lula foi também condenado em 2006, por prática de propaganda eleitoral antecipada, inclusive publicações de responsabilidade da Casa Civil, do ministério do Planejamento e da Secretaria Geral da Presidência da República.
Se o programa do PT de quinta passada não for considerado "propaganda antecipada", essa figura jurídica terá sido revogada do direito brasileiro.
A pergunta no ar, daqueles que acreditam na ética política, é sobre o que fazer, diante de quadro tão caótico. Conclui-se que a clemência com alguns acusados, a união dos contrários e a antecipação da propaganda visam unicamente a defesa do princípio: "quem está dentro não sai; quem está fora não entra".
É isto mesmo!
DEMolição
Gaudêncio Torquato Jornalista
Ésabido que, em se tratando dos nossos trópicos, tudo é possível. Até mesmo a tentativa de juntar Deus e o diabo em uma mesma oração. Pois foi o que se viu num dos mais excêntricos atos de cunho religioso-político de nossa curvilínea História: três figuras rezando e agradecendo ao Senhor por ter escolhido um deles como "instrumento de bênção" para a vida deles. A cerimônia continha os elementos da liturgia cristã: contrição, louvação a Deus, solidariedade. O detalhe: tratava-se de uma arapuca. Coisa armada para pegar fiéis da propina. Durval Barbosa, o "abençoado instrumento" de Deus naquela reza, ex-secretário de Relações Institucionais do governo do Distrito Federal (DF), deve ter feito grande esforço para não gargalhar, pois gravava a cena em que dois deputados, um deles presidente da Câmara Legislativa, abraçados a ele, rezavam a Oração da Propina. A prece, dirigida diretamente ao Senhor, ganha o troféu de ouro da hipocrisia nacional pela antinomia de símbolos que encarna: agradecimento à Providência Divina pela existência de um "homem da mala". Nunca a estética da corrupção alcançou grau tão elevado de sofisticação. O espetáculo, digno de Macunaíma, nosso herói sem caráter, marcará a história do caixa 2 não apenas pela abordagem inusitada, mas pelo fato de que terá consequências no pleito de 2010.
Os parlamentares agraciados com pacotes de cédulas não desconfiaram da armadilha e recitaram com fervor a reza, que, tempos depois, surgiu como profecia: "A sentença é o Senhor que determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer." Se o Senhor fez ou não acontecer, o fato é que o flagrante até parece coisa do diabo. O diabo, no caso, foi o próprio "instrumento" Durval, que deixou os devotos em maus lençóis. A morfologia de nossa cultura explica o fervoroso gesto, a começar pela lembrança de que o santo nome de Deus sempre frequenta os mais comezinhos atos do cotidiano. Inédito, porém, é usá-lo como escudo para abrigar desvios criminosos. Eis a mania da velha malandragem:cobrir o espaço profano, e mazelas, com o manto sagrado, esperando que esse recurso consiga atenuar a gravidade de delitos praticados. Ou seja, o escudo dos Céus serve como pronto-socorro psicológico de hipócritas e oportunistas.
O flagrante que ameaça afastar do cargo o governador do DF, José Roberto Arruda, mostra por inteiro a semântica e a estética do propinoduto. Diálogos entre corruptos e corruptores, agentes com a tarefa de coletar propina, repartição de dinheiro entre figurantes e o gesto hilário de esconder dinheiro no paletó, dentro de cuecas e, pasmem, até em meias. Quem iria imaginar que essas peças do vestuário fossem meio seguro de transporte? A crônica da corrupção flagrada apresenta densa coleção de imagens. Cenas foram vistas por milhões de brasileiros. Como é sabido, mais vale a visão do que a expressão. Maquiavel ensinava: "Os homens em geral julgam antes com os olhos do que com as mãos. Todo mundo vê muito bem o que aparentas por fora, mas poucos percebem o que há por dentro." Ao contráriodo que pensa o presidente Lula - "as imagens não falam por si só" -, estamos em plena era da telepolítica. O cidadão reage à imagem do que vê, e não ao argumento dos envolvidos.
Esse desfile escatológico deixará em segundo plano o arsenal argumentativo dos flagrados. Justificativas não serão críveis pelo artificialismo da arquitetura expressiva. O folclore político ganha histórias fantasiosas, como essa de que a grana recebida pelo governador se destinou à compra de brinquedos e panetones para crianças carentes. O DEM deverá expulsar Arruda de seus quadros, menos por convicção e mais por conveniência. Mas não conseguirá repor o eixo do discurso: ataque ao mensalão do PT. A sobrevivência política do governador será uma equação de difícil solução no curto prazo. A aliança entre tucanos e democratas será abalada. As paredes do edifício a ser construído por ambos ganharão rachaduras. No jogo de soma zero, o gol contra do time da oposição significa o avanço do time da situação. Alguém pode opor o argumento de queo jogo está zerado: PT, PSDB e DEM, e os partidos que giram a seu redor, exibem - todos - a fatura dos mensalões. Mas há um diferencial: a proximidade. Os últimos eventos prevalecem sobre os anteriores, principalmente quando as imagens são mais fortes. A cada evento aumenta o descrédito na política, o vácuo entre a sociedade e as instituições.
Os escândalos políticos sucedem-se em ritmo avassalador, expandindo as especulações. No meio das dúvidas, a única certeza é sobre a extraordinária dimensão que a hagiologia, área de estudos que cobre a obra dos santos, adquire no Brasil, particularmente em tempos de turbulência. Os nossos santos mais populares têm dado expediente dobrado para atender às súplicas, com destaque para São Judas Tadeu, o santo das causas perdidas, e Santo Expedito, a quem seres angustiados recorrem quando se defrontam com questões impossíveis. Pelo andar da carruagem, no campo da política, as graças vão demorar a chegar.
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Edição de domingo, 13 de dezembro de 2009
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