Ney Lopes Jornalista, advogado e ex-deputado federal
Afinal, 2010. Terminam as festas e começam os desafios. Justifica-se certo otimismo: menos conformismo com o presente e tênue confiança de que o futuro "poderá" ser diferente.
Na vida diária, cada um busca a paz, saúde e prosperidade. Quando se pensa no coletivo, o ponto de equilíbrio para a harmonia da sociedade é a eficiência do papel desempenhado pelo Estado. A ele cabe dosar as ações, que conduzam a melhor, ou pior qualidade de vida do cidadão.
O início de ano eleitoral parece ser o momento propicio para algumas reflexões. Estou convencido, de que as ideologias incentivaram o dogmatismo, o radicalismo e a intolerância no mundo. Sobrevivem as doutrinas, assim entendidas como princípios rígidos, que se adaptam as circunstâncias do tempo e do espaço.
Nos anos sessenta - militante da política estudantil - comecei a ter preocupações, acerca do papel do Estado nas questões políticas, econômicas e sociais e a preservação do interesse coletivo. Naquela época, li e idolatrei o padre Lebret ("Dinâmica do Desenvolvimento"), Jacques Maritain ("Humanismo integral"), Alceu de Amoroso Lima (Introdução à Sociologia"), Leon Blois ("Moral e sociologia"), André Piettre ("Marxismo") e outros. Diante do dilema capitalismo vs comunismo, todos esses autores defendiam princípios, com base na doutrina social cristã. Logo depois, veio a contribuição do Papa João XXIII, com as encíclicas Pacem in terris e Mater et Magistra.
Mais tarde - 26 de dezembro de 1991 - Mikhail Gorbachev, então presidente soviético, decretou a "perestroika". Acabou a guerra fria, extirpou a intolerância ideológica do comunismo stalinista e mudou a história da humanidade. Gorbachev demonstrou, que a rigidez do marxismo conduzia a Rússia ao abismo.
A experiência histórica demonstra que, se colocadas numa bandeja, as concepções capitalista, socialista, marxista, liberal e outras têm acertos e desacertos. Nenhuma é infalível. As soluções eficazes nascem do equilíbrio e preservação de princípios (e não de dogmas), além da criatividade daqueles que exerçam funções públicas, ou privadas.
Num ano eleitoral é imprescindível chamar a atenção para a escolha do eleitor nas urnas. Tudo começa neste ponto. Votar em quem não sabe o que quer será simplesmente aprofundar o caos atual e se tornar co-autor dos escândalos, que a cada dia surgem na política brasileira.
Melhor um adversário competente, do que o sufrágio dado ao incompetente, ou oportunista!
O voto deve condicionar-se a idéias concretas e ao preparo pessoal do candidato. Não há lugar para blá, bla, ba, ou vedetismo. É semelhante a um avião em pane. Não adiantará boa vontade dos passageiros. Ou alguém conhece o manejo da aeronave, ou a tragédia se tornará inevitável. Na política, aos vitoriosos cabe preservar princípios e adotar rumos firmes. Do contrário, sobrarão os "mensalões" etc.....
Infelizmente, percebe-se no debate eleitoral já iniciado, apenas o anúncio freqüente de acordos e conluios eleitorais. Verdadeiro "toma lá, dá cá". Poucos se comprometem com ofuturo. As "uniões" e "coligações" artificiais, se assemelham a "paz dos pântanos". A única certeza será a repetição dos erros e riscos do passado.
Em tudo cabe indagar, onde ficará o interesse público?
Com a palavra para responder, o juiz do futuro, que é o eleitor!
Sob as bençãos de Zaratustra
Gaudêncio Torquato Jornalista
Em 2009 o Brasil continuou a azeitar o motor econômico, percorreu bons quilômetros na via social e andou alguns metros na estrada política. As visões sobre a trajetória do País, ao passarem pelo caleidoscópio social, adquirem dimensões diferentes, a partir dos benefícios contabilizados nas planilhas de recursos investidos nos estratos populacionais. Sob o prisma de investimentos na cobertura social, as classes da base da pirâmide foram contempladas com as maiores fatias. São, por isso, as mais satisfeitas. Os efeitos da política de distribuição de renda, mesmo sob claros sinais de viés eleitoreiro-populista, fazem-se ver na inserção de cerca de 20 milhões de pessoas que ascenderam à classe C e, pelos cálculos do governo, de cerca de 30 milhões que deixaram o fundão da miséria absoluta. Esse é o patrimônio mais significativo do governo Lula. A corrida rumo ao progresso leva em conta, ainda, a boa performance do País na curva da crise internacional.
Com a economia sob controle, amplos programas de distribuição de renda, confiança social no governo e sólido sistema financeiro, o País passou a ser ouvido com atenção em palcos internacionais. Exemplo foi o aplaudido discurso de Luiz Inácio na fracassada Conferência sobre Mudança do Clima, em Copenhague. Se o País passou bem em testes das áreas econômica e assistencialista, teve notas insuficientes em setores fundamentais como educação, saúde e segurança pública. As fraudes nos exames do Enem mostram uma pontinha da precariedade do sistema educacional. A estrutura da saúde é plena de imensas carências. E a violência não tem diminuído, apesar do acesso ao consumo de milhões de marginalizados. Diante desse quadro, emerge a pergunta para abrir o novo ano: em que 2010 poderá ser diferente para os brasileiros, além de propiciar o pleito eleitoral que se desenha como um dos mais contundentes de sua História?
Na frente política, o que se pode esperar é uma reversão de expectativas. Reformar a política de modo substantivo é tarefa que leva tempo.Em ano eleitoral, o conservadorismo impera em matéria de mudança de padrões. Na esfera econômica, decisões que possam vir de encontro ao interesse dos entes federativos - compressão da cadeia tributária, por exemplo - também se mostram inviáveis. Ninguém quer perder. Já na área social a tendência é de expansão de programas existentes e voltados para melhorar a vida das margens carentes e desapertar o bolso das classes médias. O desafio será combinar política econômica e investimentos na agenda social. O tom do exagero será dado pela corneta populista.
2010 será efervescente. A retórica eleitoral dominará o ano. O discurso nacional terá maior peso que o discurso regional. Valores inerentes aos contendores serão enaltecidos. Mas as candidaturas se esforçarão para realçar as molduras que as cercam, ou seja, estilos e maneiras de administrar o País. O petismo/lulismo aparecerá como modelo de gestão. A crônica já anunciada é a de que a dinâmica social jamais foi tão intensa. Lula aparecerá como o grande divisor deáguas. A polêmica resvalará pelo perigoso terreno do conflito de classes. As conquistas, na visão dos governistas, só foram possíveis porque gestadas pelo PT, sigla comprometida com a revolução socialista. Nesse ponto, a conotação aponta para a luta de classes, de pobres contra ricos, de oprimidos contra opressores, de éticos contra antiéticos. Na maior cara de pau.
Em outra ponta está o PSDB, com a marca social-democrata, desgastada não só porque o partido deixou de se atualizar, como permitiu a outras siglas se apropriarem de seu dicionário. O centrão social-democrata, que reúne entidades diversas, é uma geleia geral. A credibilidade tucana mantém-se pelo prestígio de seus quadros. É o que explica, por exemplo, a liderança do pré-candidato José Serra em pesquisas eleitorais. Os tucanos, ademais, estão dispersos e tateiam na construção de um discurso nacional. Temas essenciais (a partidarização do Estado, por exemplo) que alimentam sua crítica não motivam as massas, atraindo apenas a simpatia de núcleos quejá lhes são fiéis. Nas praças estaduais, alianças e acordos se repartirão entre as conveniências regionais e nacionais. Mas os pleitos locais tendem a se impregnar do clima geral. A situação do País dará o norte aos discursos tanto de candidatos da situação como da oposição.
Não se espere nada de novo. O que vislumbramos é a figura de Zaratustra, ao abrir os olhos após sete dias enfermo na caverna. Ali ele ouviu de seus animais: "És o mestre do eterno retorno; ensinas que há um ano descomunal de grande, que deve, qual ampulheta, virar-se e revirar-se sem cessar, a fim de começar e acabar de escoar-se; de tal sorte que esses anos todos são iguais a si mesmos, nas coisas maiores e nas coisas menores." Entramos em 2010 sob as bênçãos do profeta de Nietzsche.
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação
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Edição de domingo, 10 de janeiro de 2010
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