Colunas Edição de quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Editorial
A necessária autogestão
No século 18, o Haiti, governado pela França, era a mais próspera colônia no Novo Mundo. Seu solo fértil rendia uma abundante colheita, atraindo os colonizadores, o que forjou uma economia primária. Fabricava açúcar de excelente qualidade, que concorreu com o produto brasileiro no século 17. Depois de vários regimes ditatoriais, na pobreza extrema, segue produzindo açúcar, e mais banana, manga, milho, legumes, batata-doce e outros tubérculos. Da segunda metade do século 19 ao começo do 20, duas dezenas de governantes sucederam-se no poder, dos quais 16 foram depostos ou assassinados.
Tropas dos Estados Unidos ocuparam o país entre 1915 e 1934, sob o pretexto de proteger os interesses norte-americanos locais. Em 1946, foi eleito um presidente negro, Dusmarsais Estimé. Depois da queda de mais dois governantes, o médico François Duvalier (Papa Doc) foi eleito em 1957, mas logo mostrou as garras de ditador sanguinário, se escudando nos tontons macoutes (bichos-papões), sua guarda pessoal, e na exploração do vodu.Presidente vitalício a partir de 1964, Duvalier exterminou a oposição e perseguiu a Igreja Católica. Morreu em 1971, assumindo o filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que, em 1986, decretou estado de sítio.
Desde então, o Haiti nunca mais foi o mesmo. O povo foi para as ruas e Baby Doc fugiu com a família para a França, assumindo o general Henri Namphy, sendo eleito Leslie Manigat, em pleito caracterizado por grande abstenção. Governou quatro meses, sendo deposto por Namphy, por sua vez, derrubado pelo general Prosper Avril. Depois de grande conturbação política, novo pleito presidencial livre em 1990, vencido pelo padre esquerdista Jean-Bertrand Aristide, deposto em 1991 num golpe de Estado liderado pelo general Raul Cedras, se exilando nos EUA.
Sanções econômicas, intervenções da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Organização das Nações Unidas (ONU) se seguiram. Mas a economia não reagiu. O Haiti permanece extremamente pobre, com 50% da população analfabeta, expectativa de vida de 51 anos erenda per capita correspondente a um terço da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Em 2004, tropas da ONU, com 6,7 mil homens - Brasil à frente -, assumiu o controle do país centro-americano.
Devastado por um forte terremoto, que matou milhares de pessoas e destruiu 70% das construções, o Haiti vive o caos. Numa primeira hora, chega de todos os lados ajuda humanitária e de apoio logístico para enterrar seus mortos, combater saques e doenças e cuidar dos feridos, além de reconstruir o básico para a população tentar voltar a um dia a dia com o mínimo de segurança.
E depois? As nações ricas e em desenvolvimento que estão empenhadas nessa operação precisam depois dar as mãos e trabalhar em conjunto para dotar o paupérrimo país caribenho de condições de autogestão. Urge que seu povo ganhe autonomia para caminhar com as próprias pernas.
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