Muito Edição de terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Potiguar soteropolitano
O músico Kiko Chagas lança um olhar crítico sobre a identidade da cultura local
Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@dabr.com.br
Natal segue sem definições claras a despeito de sua própria identidade e cultura. E nas proximidades do Carnaval, as dúvidas ficam mais latentes. A música baiana ou os frevos pernambucanos percorrem cada quarteirão da cidade.
Kiko com sua guitarra baiana: experiência em grandes palcos brasileiros Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press
Um senhor chamado Dosinho recebe homenagens sem que a populaça reconheça sua fisionomia ou músicas. O desfile das Tribos de Índio ainda causa confusão. "Será que são índios mesmo?". Na "civilização" baiana, os trios elétricos, os blocos negros, o Afoxé Filhos de Gandhi, o pau elétrico. Em Recife, o frevo, Alceu Valença, o bloco Vassourinhas, o autêntico carnaval de rua. Em ambos, milhões de pessoas procuram um carnaval já desenhado há décadas, enquanto Natal permanece mergulhada no mar das culturas alheias. Mas, qual o motivo?
O compositor e dos grandes guitarristas da cidade, Kiko Chagas traz alguns porquês. A principal seria a falta de pagamento de direitos autorais aos compositores de Natal. "Como a música na cidade vai crescer dessa maneira? Uma música minha toca no município de Valença, na Bahia, e eu recebo. Se tocar na minha cidade não recebo nada. Qual o estímulo para os músicos daqui escreverem músicas de carnaval?". Uma das canções de Kiko Chagas, É Amor, foi interpretada pela banda Cheiro de Amor e tocada durante a última apresentação do Criança Esperança, na Rede Globo. "Essa música foi incluída na série Músicas do Século 20 (selo Polygram), no CD da banda. E eu pergunto: qual outra composição feita por potiguar teve sucesso na Bahia nos últimos 20 anos?".
Kiko aponta a falta de organização dos músicos potiguares como outro obstáculo ao crescimento do carnaval em Natal. Segundo o músico, todos deveriam estar unidos em busca de um escritório do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) instalado em Natal. O mais próximo é o de Recife. Kiko afirma que os direitos autorais de cada música tocada aqui são pagos lá e não retornam ao bolso do compositor. "Junto com o Ecad, traríamos a Socinpro (Sociedade Brasileira de Administraçãoe Proteção dos Direitos Intelectuais) - uma espécie de fiscalizador do Ecad. O mais próximo também é em Recife.
Fizeram em Goiás porque lá tem o Zezé de Camargo, o Leonardo. Precisamos nos unir aqui para trazer essas entidades e começarmos a valorizar o nosso músico". A ausência de escritórios fiscalizadores como o Ecad e a Socinpro planta a cultura do empréstimo gratuito de canções. Compositores doam músicas a intérpretes em troca apenas do reconhecimento. Bandas populares como o Grafith, sem qualquer inscrição em entidades de proteção ao direito autoral vendem milhares de CDs e DVDs no mercado informal e deixam de recolher os direitos autorais que caberiam aos compositores dos seus sucessos. Para reverter essa situação, Kiko Chagas tem procurado fortalecer a Associação Potiguar dos Artistas e Compositores do RN (Apacirn), filiada à Associação Paraibana de Autores e Compositores (Apac), já ramificado em outros estados nordestinos. Esse seria o primeiro passo para melhor identificação da música potiguar.
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