Colunas Edição de terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Opinião
O que o futebol não pode fazer
Pablo Capistrano www.pablocapistrano.com.br
Está circulando nas TVs um comercial de não sei o quê no qual aparece um garotinho judeu com uma camisa da seleção brasileira chutando uma bola. A bola atravessa a rua e derruba um saco de grãos bem em frente de um garoto mulçumano que também veste a camisa da seleção brasileira. Após alguns segundos de tensão, o garoto mulçumano devolve a bola para o garoto judeu e todos sorriem porque afinal, os dois torcem pela mesma seleção de Zico, Pelé e Kaká.
Moral da história: o futebol une os povos e a seleção brasileira é mais eficaz do que a ONU no que diz respeito a construção da paz no planeta. É sintomático que essa mensagem publicitária esteja sendo veiculada em um ano de copa africana na qual a seleção de Togo, na qual joga Adebayor do Manchester City, foi metralhada na região de Cabinda, fronteira norte de Angola.
Existe uma mitologia publicitária reforçada ideologicamente a cada copa do mundo e a cada olimpíada que insinua ter o esporte algum tipo de prerrogativa mágica de ultrapassar questões sociais e políticas. Paradoxalmente, o discurso protagonizado por essa narrativa indica que o esporte está acima da política, da economia e das questões sociais. Nessa leitura o poder estético do jogo, a magia lúdica de uma partida de futebol, por exemplo, pode servir como um elemento transfigurador da realidade.
Curiosamente, o paradoxo dessa leitura é que, um instrumento que está acima da política, pode mudar politicamente o mundo. Como isso é possível? Bem, as impossibilidades são elementos desagradáveis no mundo da publicidade e as narrativas ideológicas precisam saltar certos detalhes que comprometem suas próprias bases.
O fato é que o futebol, como um artefato cultural humano, não está à margem da política e muito menos da economia. O futebol não está fora do mundo. Ele não é transcendente e seus arredores são marcados pelos deslizes morais dos humanos, pelo apelo do dinheiro, pela influência da religião e da política e pela presença da curiosa comédia dos valores humanos (veja o caso do chifre protagonizado pelo Ex-capitão da seleção inglesa e craque do Chelsea John Terry, ou a disputa pessoal envolvendo Maradona e Riquelme que quase deixou a Argentina fora da copa).
O futebol pode fazer muitas coisas. Ele é catártico, estético, trágico, épico, lírico. Sua narrativa pode oscilar entre a alegria idiota e exultante das grandes vitórias, até o abismo sinistro e melancólico das derrotas inexplicáveis (porque as derrotas vexatórias produzem ódio). Um jogo de futebol pode nos levar a todos esses espaços emotivos, mas não pode mudar o mundo. Não há transcendência absoluta no esporte. A não ser, é claro a transcendência do momento, do instante, do segundo que quando retido na memória transporta o espectador até o portão da eternidade, como Fausto, que, no quinto ato da segunda parte da peça de Goethe, ao contemplar a mais exata visão da modernidade, expressou: "Sim, ao Momento então diria: Oh! pára enfim és tão formoso! Jamais perecerá, de minha térrea via, este vestígio portentoso! Na ima presciência desse altíssimo contento, vivo ora o máximo, único [UTF-8?]momento".
O gol, o único momento de absoluta transcendência no futebol é o instante que produz o maior vestígio de dor e deleite que um bom jogo de bola deixa marcado na memória dos torcedores. Mas é isso e nada mais. O futebol é esse momento, da espera do gol, da frustração pelo gol sofrido, da exaltação pelo gol feito, do inesperado, do imprevisível. O resto está mergulhado na mais profunda imanência das coisas do mundo. No dinheiro, na traição conjugal, no vazio dos egos atormentados, na corrupção, na injustiça, nos tapetões da política esportiva e também, nas demandas sociais nos cercam. O futebol pode fazer muitas coisas, mas, a despeito das propagandas, ele não pode mudar o mundo.
* Pablo Capistrano escreve neste espaço às terças-feiras
Com forma da gente!
Cristina Hahn Piscóloga
Há algum tempo, li um texto que me fez parar e pensar na nossa incapacidadepara lutar por aquilo considerado necessário, certo, justo ou ético. Um textoque afirmava: "Eu sei, mas não devia...". Hoje, parafraseando respeitosamentea lembrança desse texto, venho prolongar essa discussão e aqui deixar motivospara uma profunda reflexão (mesmo que isso implique em sair da fôrma).A gente se conforma a pagar juros altos no cheque especial porque as nossasdespesas superam o orçamento doméstico; E para pagar o cheque especial, agente batalha horas a mais, ou se possível, faz um bico aqui, outro ali. E, nocorre-corre para pagar as contas, atropela o tempo e esquece de viver... Anda com os vidros "peliculadamente pretos" fechados do carro e as portastravadas porque a violência urbana tornou-se insustentável e, porque é maisfácil travar as portas e janelas do que travar uma briga pela questão dasegurança pública.
A gente se conforma em olhar a lista dos candidatos e votar no "menos pior",ou seja,"aquele que rouba mas faz", sob a desculpa de que os "outros sóroubam... não fazem nada", anulando assim o nosso poder de cobrança de suasações, delegando plenos poderes ao Sr...Dr... Fulano de tal... Porque a essaaltura, que diferença faz sermos ou não coniventes com a desgraça do país?
Se o ensino público vai mal, a gente paga "colégio particular" para garantiro acesso do filho à Universidade: a pública, é claro! Pagamos plano de saúde,mesmo correndo o risco de não ter cobertura da doença "escolhida", mas pelomenos... Podemos visitar "todas as especialidades médicas" exigindo todos osexames possíveis e imagináveis porque o plano de saúde paga e é nosso direito(ou dever?) aDO(R)éCER... Afinal, a dor é... Cogitando uma "ínfima possibilidade" de uma ampla reforma no sistemaprevidenciário e nas leis trabalhistas, a gente já começa a pagar um plano deprevidência privada, para não correr o risco de sofrer humilhações na hora do"recolhimento" e por acreditar que, pelo menos na velhice, viveremos sem"subviver" da aposentadoria prevista para o futuro (?)... Fazer o quê? Se o relacionamento vai mal, a gente vira a cara para o outro e diz que querum tempo para pensar e refletir. E dá um tempo sem saber o que fazer daqueletempo... Porque "dar um tempo" é mais fácil do que enfrentar a situação defrente e porque, mesmo vivendo lado a lado durante anos, olhar no olho e falara verdade, ainda é um desafio para poucos. Falar daquilo que está machucandonão é fácil... Afinal, a gente foi "deformado" para se defender das armadilhasda vida, a evitar sofrimento, fugir de nossas responsabilidades culpando ooutro, esconder-se do amor... Além do mais, para quê discutir a relação se elapode "acabar" como se nunca tivesse começado? E na ânsia de sonhar, a gente se conforma em ir dormir agarrando otravesseiro, quando na verdade, só queríamos deitar no peito da pessoa amada.Queria deitar no peito e falar bobagens sussurrantes, ou mesmo não falarnada... Só ficar no silêncio daquela emoção de poder adormecer e voltar asonhar. Sonhar que se recusa a engrossar esse coro conformista, que nega odesejo, a vontade, o sonho... E a gente sonha... E sonha... Porque o sonho foia única coisa que restou: Porque exclusivamente o sonho se recusou a se conformar.
* Cristina Hahn escreve às terças-feiras neste espaço
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