Economia Edição de terça-feira, 9 de março de 2010
Trabalho desigual
Três pesquisas mostram que a mulher avança, mas ainda está longe de ser tratada profissionalmente como um homem
A situação das mulheres no mercado de trabalho está melhor, mas ainda longe da igualdade com os homens. O cenário foi ratificado por resultados de três análises divulgadas ontem, Dia da Mulher. Ipea, IBGE e Serasa mostraram que elas são maioria entre dois dos três grupos os mais ricos da população brasileira e têm mais estudo, mas a maioria das trabalhadoras ainda ganha pouco e há mais mulheres do que homens trabalhando em situações precárias, embora a parcela delas nessas condições tenha diminuído entre 1998 e 2008.
Os resultados da Serasa são do Mosaic Brasil, ferramenta de segmentação de mercado, que levou em conta uma base de dados de 135 milhões de brasileiros. São dez perfis de classes sociais (de A a J) e 39 subgrupos em função da renda, geografia, demografia, padrões comportamentais e estilo de vida. Para o Rio Grande do Norte, a empresa destacou apenas a participação feminina nos segmentos "Aposentados Rurais do Nordeste" e "Jovens Trabalhadores do Nordeste Rural", os dois em que elas possuem maiorrepresentatividade no estado, de acordo com a assessoria de comunicação da Serasa. Diferente em estados do Sudeste, onde as mulheres aparecem com presença forte nos grupos A, B e C.
Beleza e sensibilidade: toque feminino ainda não conseguiu dobrar o preconceito Foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Entre os "Aposentados..." - trabalhadores rurais aposentados pobres, moradores das cidades do interior do Nordeste e que recebem auxílio governamental - estão 7,2% da população feminina do estado. Os "Jovens#" são subgrupo no qual estão inclusos adultos, entre 20 e 30 anos, solteiros, pobres e que possuem formação escolar entre o ensino fundamental e o médio: 4,4% deles, no RN, são mulheres.
Brasil
No país, as mulheres lideram os grupos B e C (moradores urbanos prósperos e assalariados urbanos), de acordo com a Serasa Experian. Na camada de maior renda, a A (de ricos, sofisticados e influentes), os homens ainda são maioria. "Os dados estatísticos da pesquisa e a análise dos acadêmicos da USP revelam que a mulher não é apenas 0rica porque vive numa família com boas condições financeiras, mas sim porque é agente econômica desse clã",afirmou o presidente da Serasa Experian, Ricardo Loureiro.
Outro dado mostra a abrangência da atuação feminina nas classes com menor poder aquisitivo. Dentro do grupo Assalariados Urbanos (C), o futuro começa a ser desenhado no segmento Jovens Promissores (C8), no qual as mulheres também são maioria, com 57% de presença. Nesse subgrupo estão pessoas com até 30 anos, na grande maioria solteiros, morando em regiões urbanas confortáveis e que investem na carreira e na profissionalização. Este segmento está em sexto lugar na tabela geral com maior proporção de mulheres.
Perfil
Precariedade
Segundo o Ipea, entre 1998 e 2008 o número de mulheres que trabalhavam em ocupações precárias passou de 48,3% para 42,1%, enquanto o número de homens que desempenhavam as mesmas passou de 31,2% para 26,2%. O Ipea considera ocupação precária aquela com renda inadequada, que está na informalidade ou não é remunerada. Outros dados mostram as mulheres têm mais estudo mas ainda ganham menos.
Mais estudo
De acordo com a pesquisa do Ipea, as mulheres têm mais anos de estudo do que os homens. Em 1998, as trabalhadoras com 15 anos de idade ou mais tinham em média seis anos de estudo, enquanto os homens na mesma faixa etária, haviam estudado por 5,8 anos em média. No ensino superior, em 2008, das mulheres entre 18 e 24 anos, 15,7% frequentavam o ensino superior, enquanto o percentual de homens na mesma faixa etária era de 11,8%. Segundo o IBGE, em 2009, enquanto 61,2% das trabalhadoras tinham o ensino médio completo, para os homens este percentual era de 53,2%. A parcela de mulheres ocupadas com nível superior completo era de 19,6%, também superior ao dos homens (14,2%).
Menos renda
Ainda segundo o IBGE, a média de rendimentos das mulheres continua inferior à dos homens, mas melhorou nos últimos seis anos. Em 2009, enquanto o homem ganhava em média R$ 1.518,31, a mulher ganhava R$ 1.097,93, 72,3% do rendimento recebido pelos homens. Em 2003, esse percentual era de 70,8%. O Ipea alerta que, apesar da ligeira aproximação salarial, é preciso investir em ações específicas para enfrenta as desigualdades de gênero. "A gente pode falar de avanços, porque as mulheres estão cada vez mais no mercado de trabalho, mais na política. Houve avanços, mas tímidos", afirmou a coordenadora da pesquisa do Ipea, Natália Foutoura. O estudo explica que a diferença de renda entre os dois grupos se explica pela menor jornada de trabalho das mulheres, pela ocupação de postos de trabalho de má qualidade e pelas barreiras para a ascensão profissional das mulheres nos ambientes de trabalho.
As pesquisas do IBGE e a do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) - que também usou dados do IBGE entre suas fontes - se basearam em levantamentos junto às regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.
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