Colunas Edição de sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Editorial
Complexa retirada
A retirada parcial das tropas americanas do Iraque não significa o fim da guerra. É o fim da participação de Washington em operações de combate no país. Nada menos de 50 mil soldados permanecem no território dominado pela Casa Branca há sete anos. Parte deles ficará em zonas perigosas, sujeita a atentados que se tornaram rotina desde a desastrada invasão estadunidense, levada adiante sem o aval da ONU.
Barack Obama, embora cumpra o calendário fixado pelos republicanos, pretende capitalizar politicamente o fato. Mira não tanto a eleição legislativa de novembro próximo, em que questões de política externa têm pouca relevância. Com a saída, espera marcar a diferença. Os democratas sentem-se desconfortáveis ao verem a comparação do jovem presidente com o antecessor, George W. Bush. Apesar de Obama ter recebido a herança maldita, ambos, na visão popular, seriam partidários da solução das armas em vez da diplomática.
Os Estados Unidos deixam um país devastado, com as instituições em frangalhos e sem liderança forte. O balanço da aventura totalitária é trágico. Morreram mais de 4 mil americanos e, embora o Pentágono não contabilize a morte de civis, estima-se que 130 mil iraquianos perderam a vida. Focos terroristas, antes distantes das fronteiras da antiga Mesopotâmia, instalaram-se ali, pondo em risco a segurança do resto do mundo.
Mais: Washington promoveu eleições em 2010, mas não conseguiu formar um governo capaz de conduzir os destinos nacionais sem necessidade de cobertura da Casa Branca. Os xiitas, vencedores, têm disputa intestina entre a facção secular e os partidos religiosos, próximos do Irã. A solução política ideal para Bagdá exige um poder capaz de agir com determinação. Bombas, destruição e mortes não se mostraram receita acertada. Ao contrário. Pioraram o quadro em vez de melhorá-lo.
O remendo imposto ao Iraque não põe fim às agruras de Barack Obama. A guerra do Afeganistão, que se arrasta há nove anos, segue sem perspectiva de solução. Analistas dizem que não haverá vencidos nem vencedores. Os democratas exigem a saída imediata das tropas americanas atoladas no país dos talibãs. O presidente não os atendeu. Fixou a retirada para julho. Desagradou ao próprio partido e aos republicanos. Os opositores dizem que estabelecer um calendário afeta o moral dos soldados que lá estão. Obama jogou a cartada. Recuperar a popularidade não está mais nas suas mãos. Depende do que acontecer no Iraque e no Afeganistão.
Charge
Arte: J.César
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