"Mais uma boca no mundo, mais um trafica chorando, lá vem mais um quase nada, mais um para chorar de fome, mais um para levar tiro, mais um bandido no morro, mais um perdido na vida..." - Há dias, escutava a canção do Kleber e veio-me à memória alguém que conheço como a mim mesmo.
Nasceu num "cortiço", onde havia quatro banheiros sujos e quebrados para partilhar com mais uma centena de pobres como ele. Passou a infância numa oficina de fazer vassouras, num bairro onde não entrava ambulância nem polícia. A sua família reinventava com dignidade a parca existência. O pai, que acumulava três empregos mal pagos, foi preso, injustamente acusado de roubar. A família empenhou o que restava dos poucos haveres, para provar a sua inocência. A mãe morreu jovem, do cansaço de um trabalho insano. Os avós paternos cedo sucumbiram à fome e a um surto de tuberculose. Os maternos tinham migrado da aldeia rural para a cidade grande, na ilusão de uma vida melhor. Partiram cedo, minados pelo alcoól e por maus-tratos.
Estava destinado a ser líder de uma gangue do bairro. Era um dos raros que sabia ler, era hábil a resolver encrencas e a escrever cartas de amor encomendadas. Tão sagaz quanto franzino, ganhara o respeito de ciganos e marginais, que nele não usavam as facas e o defendiam de outras sortes. Com eles aprendeu a gramática da sobrevivência: agredir os gringos que na rua aparecessem e, só depois de eles sangrarem, perguntar-lhes ao que vinham...
Conviveu com todo o tipo de violência. Cedo entendeu que fora roubado todos os dias, desde o dia em que nascera. Que, enquanto os seus dormiam no chão da rua, outros dormiam sonos tranquilos. Foi perdendo amigas para a prostituição e amigos para o cárcere. A tuberculose, a sífilis, a fome e a bala foram ceifando vidas ao seu redor. Nas juninas dos seus dezoito anos, o seu melhor amigo conheceu uma moça abastada e lá se foi, casamento de rico, sonho americano de ascensão social, que pouco durou. Sem amigos e sem futuro, pela mão de dois providenciais vizinhos, trocou a solidão pela evasão. Deles ficou devedor daquilo que nunca lhes pode pagar: o resgate de uma vida. Trabalhou para poder estudar e fez um curso - fez-se professor.
Ele sabe, melhor do que ninguém, que os criminosos não nascem criminosos. Conhece os mecanismos sociais que os produzem. Por experiência pessoal, também sabe que, quando a sociedade e a escola produzem exclusão, o jovem não fica solto e busca a inclusão em grupos marginais. Sensível aos dramas vividos pelos seus alunos, entristecem-no certas atitudes de professores coniventes com a má qualidade de uma escola vocacionada para manter um sistema iníquo, no qual quem tem curso superior merece prisão especial...
Talvez porque não conheçam a sua história de vida, os seus colegas de profissão se tivessem surpreendido com a sua colérica reação, quando escutou este diálogo na sala dos professores:
"Aí, eu disse-lhe: Quem é que tu pensas que és, seu merdinhas? Saio de casa para aturar esta bosta! Eu não ganho para isso!"
"Fez muito bem, colega! Eles vêm de casa desse jeito. Já nasceram assim. Esse pestinha vai ser o próximo chefe de gangue. Eles não nasceram, eles foram cagados!"
Será mesmo verdade que "quem nasce torto tarde ou nunca se endireita"? Aquilo que a psicologia chama de "profecia auto-realizada" agirá decisivamente na psique mais profunda dos professores? Sabemos que a escola não muda a sociedade, mas que muda com a sociedade, por isso, ouso perguntar: A reprodução escolar e social será um inevitável fatalismo? A escola nada poderá fazer para a contrariar? Ou poderá fazer a sua parte?
José Pacheco, educador português, idealizador do projeto da Escola da Ponte, escreve a convite do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE), que publica artigos neste espaço às sextas-feiras.
A demência, o novo e a escolaridade
Wilson Barretto, Professor e diretor da Faculdade Esuda // wilson@esuda.com.br
Muitas vezes, surpreendemo-nos quão rápido passa o tempo quando avançamos em nossas vidas. Um ano, que tanto demorava na adolescência, agora passa rapidamente e, de novo, chegamos ao Natal. Estudos feitos têm demonstrado que o nosso cérebro apaga acontecimentos que se repetem durante a nossa existência. Analisemos um pouco o funcionamento da nossa cabeça.
Todos os nossos sentidos são simplesmente pontes entre o objeto percebido e o nosso cérebro. Quando ouvimos um som, nosso cérebro decodifica a informação recebida, completando os harmônicos, para torná-lo agradável, dando-nos a sensação do ouvir. O mesmo acontece com a nossa visão, por isso que, tantas vezes, enganamo-nos na definição do que vemos distante. Nossa cabeça possui um arquivo com tudo o que vemos, de forma seletiva, então, no momento do igual, simplesmente antes da sensação do final do evento, ela já nos informa o fato. Assim, na verdade, nosso cérebro se antecipa nos dizendo as atitudes a serem tomadas em cada momento de nossas vidas.
A comparação de um dado acontecimento de agora com algum do passado é que define nossa próxima tomada de decisão. É esse trabalho de construir sempre o novo que faz com que o nosso cérebro esteja sempre em atividade, evitando, dessa forma, uma demência que hoje já atinge 35 milhões de pessoas ao redor do mundo. As vivências passadas já estão acumuladas nos "arquivos" de forma única, sendo assim, as repetições nos levam à elisão do tempo e "preguiça mental", pois o não acúmulo de novidades nos faz crer que o tempo passou rapidamente.
Pesquisas recentes, no Reino Unido e na Finlândia, concluíram que a escolaridade é um dos fatores que tem tornado lúcidos os seres humanos. As estatísticas trazem resultados indicando que o mal de Alzheimer acontece com mais frequência em pessoas com pouca escolaridade e que, no decorrer da vida, não mantêm as células nervosas de sua cabeça em atividade. Não está definido, ainda, se o melhor preparo intelectualajuda o portador da demência a superar a doença ou se é a atividade cerebral que coíbe esse acontecimento desastroso. Experimentar sempre o novo e fazer cursos diversos de seus conhecimentos anteriores têm levado o homem a ter uma mente sadia e forte.
O estudar, em nossos dias, não se propõe apenas como uma necessidade de sobrevivência física, mas também do encontro com nós mesmos, cultivando o nosso existir de forma sadia física e mentalmente. A tônica agora não é mais obter um diploma de curso superior, mas sim e, principalmente, manter acesa a nossa mente. Obter uma formação apenas informativa não levará o estudante a lugar algum. É preciso que o professor treine a mente de seus alunos na construção do conhecimento.
Para tanto, faz-se necessário o conhecimento sobre o assunto, mas e, sobretudo, a experiência dos anos a fio, construindo o saber junto a seus discípulos. O envelhecer sem o novo tornará o tempo encurtado, pois o cotidiano será apagado de nosso cérebro sem renovação. A falta do uso da magia que possuímos ao pensar adormecerá o poder da inteligência que nos distingue de outros seres vivos e dará lugar à demência que aflora na mente daqueles que se entregam à angústia de não mais enriquecer a humanidade com suas novas ideias.
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Edição de sexta-feira, 3 de setembro de 2010
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