O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) classificou como "diletantes" aqueles que, com amor vocacional e alegria, exercem determinada arte ou ciência, escolhendo suas áreas de capacitação acadêmico/profissional em virtude da primordial identificação que nutre para com as funções a elas inerentes. O diletante encontra no seu cotidiano profissional a mais pura complementação do seu ser, realizando-se profissionalmente por exercer uma atividade que lhe proporciona a satisfação de estar convicto que, de fato, nasceu para fazer aquilo.
Os diletantes se subsumem a todo e qualquer ofício ou profissão. A realização profissional a qual acima se fez menção não raro possui umbilical elo com a causa e o efeito de seus atos enquanto profissionais. O diletante farmacêutico, por exemplo, é aquele que se realiza profissionalmente ao manipular substâncias químicas cujo escopo é a cura de alguma enfermidade em terceiros que procuram osseus préstimos. O diletante engenheiro enche-se de regozijo ao ver a materialização de uma obra cuja construção foi por ele executada, idealizada e capitaneada, ciente de que dela usufruirão famílias, homens e mulheres. Ao diletante médico, não há satisfação profissional maior do que salvar uma vida, seja realizando uma intervenção cirúrgica bem sucedida, seja observando o êxito de um tratamento por ele referendado. O diletante arquiteto vê a coroação do seu esforço no soerguimento de seus projetos, estruturas, formas e desenhos nascidos de sua criatividade e sensibilidade artística e funcional, vendo tomar forma o que no início não passara de rabiscos e cálculos em uma prancheta. O diletante jurista, por sua vez, vê-se realizado ao observar o triunfo da justiça em casos concretos mediante a utilização prática de seus conhecimentos legais e doutrinários. Nessa mesma linha, o diletante jurista se realiza, reflexamente, também ao combater a injustiça que, nas palavras de Rui Barbosa, desanima o trabalho, a honestidade e o bem.
Obviamente, não é a diletância sozinha que irá pôr comida nos pratos dos românticos diletantes. A compensação pecuniária pelo trabalho realizado é, natural e obviamente, indispensável ao desenvolvimento e reconhecimento de seus esforços, não raro sendo o efeito natural de um labor realizado com amor, esforço e sobretudo vocação.
Os diletantes, entretanto, aparentam estar cada vez mais escassos em tempos atuais de desvairada capitalização do ensino, de supervalorização do status social e de supremacia das aparências. A consagração pela sociedade da cega e ensandecida cultura da busca pelo dinheiro e sua elevação à alçada de único requisito na escolha das profissões vem diminuindo em progressão geométrica os que se alicerçam primordialmente em suas naturais propensões vocacionais. Evocando a máxima popular, a tendência é que se permaneça apenas o útil, dissolvendo-se cada vez mais do agradável.
Ao que parece, a época em que a vocação era a regente-mor das escolhas profissionais vem se tornando com assombrosa velocidade um passado cada vez mais remoto. Hoje em dia é comum o desprezo à formação acadêmica voltada à construção de um profissional com sólidas bases éticas, filosóficas e sociológicas simplesmente pelo fato de delas não ser possível, segundo o atual senso comum, extrair dividendos financeiros. Disciplinas propedêuticas, em que pese sua salutar importância para a lapidação da personalidade profissional dos discentes, são muitas vezes relegadas ao segundo plano por não caírem em concursos. O modus operandi dos professores - que muito comumente nada correspondem ao conceito paulofreiriano de educadores - vem sendo regularmente pautados no mais cabal tecnicismo, total e completamente incongruentes com a razão de ser do ensino universitário, mas consentâneos com a lógica de que são necessários e suficientes para os estudantes conseguirem um cargo público como se as cadeiras da universidade existissem exclusivamente para este fim.
Diversos atores da comunidade acadêmica vêm fechando os olhos para o trabalho de conscientização acerca da função social da educação superior, faceta indelével do ensino universitário. A concepção atual da nossa classe média - avassaladora maioria nas cadeiras tanto do ensino superior público como do privado - vem reduzindo o ensino acadêmico a um mero trampolim para a ascensão social, pactuando professores e alunos com um sistema que sobreleva todo e qualquer aspecto, conhecimento ou disciplina que não possam ser, de acordo com os conceitos atuais, revertidos em pecúnia. O ensino técnico e frio, nesse contexto, passa a ser muito mais valorizado que o ensino tradicional, que visa formar profissionais socialmente sensíveis e cientes das suas responsabilidades para com a coletividade.
Frise-se que a patrimonialização como fim do aprendizado não é algo a ser rechaçado. Muito pelo contrário, pois ninguém espera que o esforço e reconhecimento do seu trabalho e do seu estudo não sejam reconhecidos através de um equivalente financeiro com eles condizente e que lhe confira um mínimo de conforto, dignidade e se possível algo mais que isso. Ao menos que seja observada como a única finalidade da academia, fazendo-se perder o tradicional conceito político-pedagógico do ensino acadêmico enquanto precípuo formador de um cidadão ciente de sua responsabilidade social, tal patrimonialização não deve ser encarada com um olhar de censura. Aqueles, por sua vez, que a utilizam como critério único de suas escolhas profissionais, encontrar-se-ão mais suscetíveis de não se realizarem profissionalmente e restarem frustrados por não trabalharem com aquilo que melhor se identificam, vez que não encontram a mesma satisfação que os diletantes mencionados no início encontram em sua rotina de trabalho.
Por óbvio, os diletantes também precisam comer, mas se diferenciam dos demais por ter apenas não seus estômagos abastecidos em função dos seus ofícios, mas também as suas almas.
É o óbvio ululante: cada país tem o indeclinável dever de mostrar ao mundo a exata situação em que se encontra.
Assim, insista-se, é impostergável tarefa ser avaliado nos campos político, econômico, social, étnico, religioso, educacional e na área da saúde.
Daí, a necessidade de se promover o Censo. Agora, o Brasil está fazendo a sua radiografia de corpo inteiro.
Começou no primeiro dia do mês de agosto, só terminando no dia 31 de outubro do corrente ano, período em que a nação brasileira vai ser passada a limpo. Com certeza, uma meta ousada e indispensável.
192 mil recenseadores, tecnicamente informatizados, percorrerão 8,5 milhões de km2, batendo à porta de 52 milhões de habitações, questionando os nossos patrícios sobre trabalho, salário, saúde, escolaridade, natalidade, mortalidade, alimentação, transporte, segurança e todos os demais ingredientes que fazem a vida de cada um.
A instrumentalização da pesquisa censitária aconteceu, pela primeira vez, no Império, em 1872, quando os dados estatísticos mostraram que o Brasil possuía uma população de 10.112.061 habitantes.
Já no início do século 20 (1900), onze anos após a Proclamação da República, já tínhamos um contingente populacional da ordem de 17.318.536 habitantes.
Depois, o Censo de 1910 somou 23.414.177 viventes. Agora, cem anos depois, com certeza 190 milhões de brasileiros serão recenseados.
Assim, o Censo, que está em operação, vai calcular os novos valores que balizarão a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), bem como quantificar o número de vereadores para todas as Câmaras Municipais.
Desnecessário lembrar que todos os temas que interessam à vida do brasileiro serão medidos e pesados.
Assim, o respeito à verdade deve ser cumprido na hora da pesquisa. Por isso, trocadilho à parte, o bem senso aconselha que se faça um Censo, que seja consenso nacional.
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Edição de quarta-feira, 8 de setembro de 2010
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