O despreparo da população natalense frente a comunicação em inglês não surpreendeu a Secretaria Municipal de Turismo e Desenvolvimento Econômico (Seturde). A secretaria disse que irá iniciar as aulas do segundo módulo dos cursos de capacitação para a Copa do Mundo de 2014. Com o apoio do Ministério do Turismo e a Fundação Universa, os cursos são voltados para o setor de eventos e propõe qualificar na língua inglesa os estudantes e profissionais de turismo que já atuam na área nas seguintes modalidades; "Gastronomia e Cultura", "Produção e Gestão de eventos", "Recepção para eventos" e "Turismo e Hotelaria para eventos".
"Foram abertas duas turmas de 70 alunos, mas para os que não puderem participar, está aberta uma lista de espera para o terceiro módulo, para ser iniciado em maio", disse Franklin Delano, coordenador de cursos do departamento de eventos. Essa medida foi tomada pela Seturde porque a demanda de inscritos foi muito grande. "Este curso está aberto para todas as pessoas. É só concorrer", completou.
ASeturde disse ainda que o curso básico está disponível na internet através do site do Ministério do Turismo. "Pretendemos continuar estendendo esse programa. É algo novo e um desafio para a Seturde, mas o objetivo é alcançar o maior número de pessoas". Ele garantiu que as secretarias municipais já começaram um trabalho de capacitação de seus funcionários na língua inglesa, com treinamentos simples, mas que sejam eficazes para uma comunicação básica no idioma.
Por sua vez, o Serviço Nacional de Apredizagem Nacional (Senac) tem um programa próprio em idiomas. Como empresa privada que recebe incentivos do governo federal, o Senac já cedeu espaço para o Programa de Desenvolvimento em Turismo (Prodetur). Com a duração de 200 horas, o Prodetur capacitou pessoas em serviços de hotelaria, vendas, recepção e mesa, sem, no entanto, se estender por toda Natal.
A Cooptax e a Taxi Aeroporto responderam que estão trabalhando em cima da capacitação dos seus profissionais junto da Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) e aSeturde. "Isso precisa envolver os 10 municípios da região metropolitana de Natal. Temos visto as dificuldades dos taxistas em relação à comunicação com os turistas. Apenas uns poucos profissionais dominam o idioma. Deste modo, estamos trabalhando para que haja uma capacitação em massa dos motoristas de táxi da capital potiguar", explicou Genário Torres, presidente da Cooptax.
Marcos Martins, presidente da Associação dos Trabalhadores Informais de Ponta Negra (Atipon), disse que a classe sofre hoje uma desconsideração. Segundo ele, desde agosto de 2009 foi solicitada à Prefeitura ajuda para a capacitação dos trabalhadores para aprenderem a língua inglesa. Ficou acordado, através da Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtas), que os trabalhadores receberiam os cursos gratuitos, estando assim aptos para atenderem melhor os turistas. Porém, isso ainda não aconteceu. "Estamos esperando, pois queremos estar qualificados. Eu sou dos poucos que domina o idioma", diz Marcos Martins.
Contatada, a Semtas contou que os Centros Públicos localizados no Centro e no Alecrim sempre ofereceram esses serviços para qualquer grupo que solicitasse. "Qualquer grupo que desejar pode solicitar o serviço oferecido gratuitamente pela Prefeitura nesses centros", respondeu a assessoria.
Por ocasião do Dia do Artesão, foi anunciada a parceria da Semtas com o Sebrae/RN, que irá qualificar aproximadamente 400 artesãos até a Copa do Mundo. Segundo a Semtas, os cursos começarão já neste semestre com aulas de atividades manuais, design, inglês, espanhol, dentre outros cursos nas mais diferentes tipologias.
De acordo com Habib Chalita, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no RN é difícil mensurar a quantidade de pessoas que trabalham no setor turístico na capital potiguar. Estima-se que só na Via Costeira sejam 2 mil funcionários, somando todos os hotéis e restaurantes.
"Natal tem muitas pessoas envolvidas com turismo. Bugueiros, guias turísticos, garçons são apenas algumas funções onde a maioria não estápreparada para falar outro idioma", afirmou Habib. "Temos uma carência muito grande nessa área, mas o Sebrae, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, está promovendo a disponiblidade de cursos de capacitação em outras línguas", finalizou.
A saga de um "estrangeiro"
8h45 - No aeroporto Augusto Severo, o repórter é frustrado ao pedir, em inglês, duas torradas, um café com leite e um achocolatado para o seu café da manhã. Ansiosa e sem emitir nenhum som, a atendente apenas apontava os itens disponíveis. Resultado: o repórter conseguiu tomar apenas um café, servido sem açúcar, e ainda ouviu o comentário das atendentes: "Coitado do gringo".
9h10 - Após perder a batalha pelo café da manhã, o repórter foi tentar alugar um veículo. Dos três guichês visitados, apenas uma vendedora o atendeu. Não sabia falar inglês, mas procurou se comunicar. Usou uma máquina de calcular para exibir valores dos veículos, explicou o tempo através de um calendário, tendo procurado esclarecer todas as dúvidas questionadas.
9h30 - Desistindo de alugar o carro, a solução natural foi tomar um táxi. Interessados em conhecerem um centro de artesanato, o repórter e sua acompanhante quase foram parar no Praia Shopping por falta de entendimento com o taxista, que enrolou um portunhol com francês mal falado durante o percurso. O momento mais inesperado foi quando, indignado por não compreender nada do que era falado, o taxista pegou um Guia Natal, abriu na página Survive in Portuguese e procurou imagens para facilitar a comunicação, dizendo: "Espera aí que eu desenrolo já o inglês desse cara".
10h05 - Ao passarem por uma feira de artesanato, a acompanhante do repórter indicou que aquele era o local pretendido. Dentro do Shopping de Artesanato, das 20 lojas visitadas, apenas em duas foram encontradas pessoas que sabiam falar inglês e compreendiam o que era falado. A proprietária de uma das lojas, Antonia Bennett disse ainda que os turistas que vêm a Natal muitas vezes não sabem falar bem o inglês, o que dificulta ainda mais a compreensão de ambas as partes. "Uma pessoa despreparada se vê então de frente com três barreiras: a incapacidade de falar, compreender e de ser entendido".
11h - Os "estrangeiros" seguem em um ônibus para a orla de Ponta Negra. Na praia, diante de um sol abrasador, mais uma peleja de gestos até conseguirem comprar duas águas de coco. Ao questionarem um bombeiro sobre possíveis perigos no mar, ele foi sucinto, mas compreendeu e respondeu a tudo. "Não há perigo algum em toda a orla do RN. Tubarões só em Pernambuco. Aqui só tem golfinhos e tartarugas", disse em um inglês confuso, mas que funcionou.
11h45 - Ao fim do passeio turístico, a conclusão: Natal não está preparada para receber turistas falantes do inglês nos principais locais por onde os turistas se locomovem. Das 35 pessoas abordadas em inglês, apenas três sabiam falar inglês, o que corresponde a menos de 10% dos entrevistados.
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