Para Henrique Fontes, a vida lhe " impôs" o dom do teatro; hoje ele se dedica integralmente à atividade
Fernanda Zauli // fernandazauli.rn@dabr.com.br
Ator, diretor, dramaturgo, produtor, arte-ducador. Henrique Fontes é tudo isso e muito mais. Ele pode ser considerado um dos mais ativos protagonistas no cenário cultural do Rio Grande do Norte. Idealizador e fundador da Casa da Ribeira, um dos espaços culturais mais importantes da cidade, ele trabalha intensamente pela cultura do estado.É um incansável e apaixonado artista. "Tem um autor que diz que ser artista é mais uma condenação do que uma dádiva. Então não é que eu tive a dádiva, o dom de ser artista, eu simplesmente não tenho como escapar disso. É a minha vida", disse.
Mas não foi sempre assim. Henrique conta que aos 10 anos de idade já sabia que queria viver de arte, mas só se reconheceu artista há sete anos. "Porque a gente nunca está pronto como artista. Eu espero estar pior nesse último espetáculo do que no próximo, é uma profissão mutante. Por isso essa minha incompletude como artista. Hoje eu me reconheço artista porque trabalho exclusivamente com arte, seja dando aula, dirigindo, escrevendo, atuando ou produzindo", disse.
Depois de 13 anos como assalariado, o ator optou: "escolhi viver de arte" Foto: Eduardo Maia/DN/D.A Press
Ele chega a trabalhar 15 horas por dia. Atualmente está envolvido na produção da programação em comemoração aos 10 anos da Casa da Ribeira - que passou por reformas e foi reaberta na última quarta-feira - está ensaiando a peça "Jacy", ao lado da atriz Quitéria Kelly, e trabalhando na remontagem do espetáculo infanto-juvenil "Flúvio e o Mar", do Coletivo Atores à Deriva. "E ainda tem que sobrar tempo para namorar, ir ao cinema, me divertir", disse. Para conseguir dar conta de todas essas atribuições Henrique procura organizar bem o seu tempo e diz que não separa vida pessoal e trabalho. "Quando a gente está ligado às artes é tudo uma coisa só. E eu acredito que, no fundo, em qualquer área não existe essa história de não misturar vida pessoal com trabalho, isso é balela. Você é você em casa, no trabalho, na balada. Essas coisas são bem integradas na minha vida, é tudo uma coisa só".
A correria, o excesso de trabalho e, muitas vezes, a falta de dinheiro, incomodam Henrique, mas não o faz pensar em ter um emprego de carteira assinada novamente. "Eu fui professor da Cultura Inglesa durante treze anos, é claro que eu gostava do trabalho, mas era a minha segurança, minha estabilidade. Mas chega um ponto em que você realmente tem que fazer uma escolha maior e eu optei pela arte, por viver de arte. E hoje eu sei que, se arranjar um emprego público ou voltar a trabalhar de carteira assinada, vai ser a minha morte, a minha infelicidade".
A falta de um horário definido, ou um chefe para dar ordens, exige de Henrique mais empenho e responsabilidade do que em um emprego formal. Ele diz que a arte, infelizmente, ainda é vista com olhos atravessados, como brincadeira. "A gente ainda enfrenta muito preconceito e por isso temos que sempre estar nos superando. E aí vem a ideia do empreendedorismo. Você tem que entender que se você quer viver de arte tem que ser o seu próprio patrão, o gerenciador das tarefas de trabalho, do dinheiro, tem que ser muito rigoroso e muito disciplinado".
O ator, diretor, dramaturgo e produtor Henrique Fontes é amazonense, mas batalha pela cultura potiguar como poucos que nasceram no Rio Grande do Norte fazem. Natal é sua morada há 28 anos, e é a cidade que ele tem como referência de casa. "Eu já fui embora de Natal duas vezes, fui estudar nos Estados Unidos e fiquei lá por um ano em cada uma dessas idas. Nas duas vezes tive a oportunidade de ficar morando por lá definitivamente, mas sempre chegava uma hora que eu pensava 'não, eu tenho que voltar para casa', e a minha referência de casa é Natal. Eu já sou um natalense".
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Edição de domingo, 27 de março de 2011
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