Pais se esforçam para oferecer o melhor aos filhos
Maristela Barros: "Nem sei direito a quanto chega", contabiliza. foto: Carlos Santos/DN/D.A Press
Desde um ano e sete meses Júlia Barros, que hoje tem seis anos e cursa o segundo ano do ensino fundamental, frequenta escola particular. A pequena encontra-se em um estrato que cada vez mais cresce dentro da sociedade brasileira e tem condições de fazer inúmeras atividades além do próprio estudo. "Além da mensalidade, tem o balé, o esporte, material e os eventos. O gasto é tão grande que nem sei direito a quanto chega", afirma a mãe de Júlia, a analista financeira Maristela Barros. Para a mãe, torna-se quase uma obrigação familiar pagar uma escola de boa qualidade para filha. "Vendo o ensino público, que apesar de ter professores qualificados, sofre com muitas greves, sem estrutura, a gente se sente obrigado a pagar por um bom ensino. E termina pagando dobrado, porque o imposto não deixa de vir", comenta Maristela.
Marioneide da Silva luta por uma vaga para filho na rede pública. Foto: CARLOS SANTOS/DN/D.A PRESS
No outro lado da realidade social, a dona-de-casa Marioneide Gomes da Silva luta para encontrar vaga para seu filho na rede pública e lamenta ter que colocá-lo para estudar nestes colégios. "Se tivesse condições, como já tive um dia, o mandava para escola particular. Até a 5ª série ele estudava no particular, mas agora não dá mais. Até nós, os pais, sentimos a diferença no ensino, imagine ele", conta ela, sobre o filho Rodrigo Gomes. O comparativo de gastos, que termina mostrando um custo parecido entre o público e o privado, termina revoltando a dona-de-casa. "Eu acho uma falta de respeito do governo com a população. Além disso, falta vaga nas escolas, falta estrutura e o salário dos professores está lá embaixo. O resultado é o que a gente sabe, uma educação fraca", explicou Marioneide, que ainda afirma que irá fazer um esforço financeiro para recolocar Rodrigo na rede privada.
Gestão da rede pública é o X da questão
A grande estrutura envolvida no funcionamento da educação pública trava o andamento do ensino, em todo Brasil. A opinião é da educadora e presidente do Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) Cláudia Santa Rosa, que defende uma descentralização, para oxigenar o ensino público. "Sofremos com uma má gestão. A verba da educação mantém uma grande estrutura. E o que passa de dinheiro por toda essa estrutura nem sempre termina em investimento", explica ela. Uma melhor divisão entre as administrações, segundo ela, seria um caminho a ser seguido. "Defendo que a descentralização seja feita. Temos um bom exemplo, que é o ensino federal, em que a administração é local e as verbas vêm direto para instituição. O ensino público também pode copiar algumas coisas do setor privado, como o planejamento e a gestão, principalmente, pois faltam pontos como avaliação e monitoramento no setor público. Falta cobrança e penalização para quem não faz o serviço", diz Cláudia, que também é coordenadora pedagógica de uma escolada rede pública.
A educadora classifica que o modelo de gestão das escolas está "matando" o ensino público. "Estamos assistindo uma morte gradativa das escolas. Estão subtraindo dos jovens o direito de conhecimento. Fico triste em ver que não conseguimos fazer funcionar o ensino público", afirma. A lógica de apequenar o ensino público, para Cláudia, não vai fazê-lo evoluir. "Falta planejar, estar junto das escolas. Não podemos perder de vista a humanização do ensino. Vejo colegas que trabalham no público e no privado, mas fazem um trabalho diferente. São inúmeras as contradições dentro da rede pública que precisam ser corrigidas", destaca a educadora. Ela ainda expõe a falta de cuidado com a alfabetização, que é tratado, segundo ela, com desprezo pelo poder público. "Na rede particular, os melhores e mais preparados professores são destacados para a alfabetização. O investimento e a cobrança são enormes para que a criança esteja lendo. Enquanto que na rede pública, qualquer professor entra na alfabetização para dar aula. Muitas vezes colocam até os mais novos" justifica.
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Edição de domingo, 5 de fevereiro de 2012
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