Cidades Edição de terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Médicos em greve a partir de hoje
Paralisação na rede estadual deve afetar o atendimento de 3,3 mil pessoas por dia, só no setor clínico
Informações fornecidas por uma médica do Hospital Walfredo Gurgel, que preferiu não ser identificada, constam de que cerca de 200 pacientes na área de ortopedia aguardam uma vaga para cirurgia em casa. Esse número deve aumentar ainda mais a partir de hoje, quando 1,6 mil profissionais da saúde estadual iniciam uma greve por tempo indeterminado. Além disso, cerca de 830 pessoas, em média, passam pela unidade diariamente, em urgência e clínica médica. "Somente os atendimentos de emergência serão realizados", afirmou o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed), Geraldo Ferreira.
Médicos fizeram protesto em frente ao Walfredo Gurgel na manhã de ontem Foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press
A greve atingirá os 23 hospitais do estado, o que afetará o atendimento de cerca de 3,3 mil pessoas por dia, somente no setor clínico. Somente o Walfredo Gurgel contabiliza cerca de 21 mil atendimentos por mês, segundo o site do governo do estado.
A categoria médica esteve presente na manhã de ontem em ato público em frente ao Walfredo e reivindica, dentre os principais pontos, a contratação de novos profissionais - principalmente na área de ortopedia, anestesia, neurologia, cirurgia geral, psiquiatria, terapia intensiva e anestesia -, melhoria nas condições de atendimento ao paciente e para o profissional, além de um reajuste salarial para R$ 7 mil para 20 horas semanais de trabalho.
"Os pacientes ficam horas esperando pelo atendimento porque não há leitos nos hospitais, principalmente quando se trata de algo mais grave que necessite de internamento em UTI. Quando não esperam, ficam perambulando dentro das ambulâncias de hospital para hospital", relatou o presidente do Sinmed.
Foi o que aconteceu com o irmão do porteiro Edimílson Timóteo, 36 anos, que teve a mão atingida por uma bala no último domingo (07) e precisou fazer uma cirugia. "No Santa Catarina fomos atendidos na mesma hora e encaminhados para o Walfredo Gurgel às 16h, mas só conseguimos ser atendidos à noite e, por volta das 23h, eu ainda não tinha nenhuma notícia sobre o estado de saúde do meu irmão", conta Edimilson. O porteiro que mora na Zona Nortede Natal lamenta o atual estado em que se encontra a saúde de pública do estado e pede atenção das autoridades. "No Santa Catarina existe muito mofo, mosca e deficiência de maqueiros. Eu mesmo tive que carregar meu irmão para a sala de raio-x porque não tinha quem ajudasse. A saúde pública não está nada bem e com a greve só a população perde, porque nós não temos condições de pagar um hospital privado e precisamos de atendimento".
Para o médico e deputado estadual Paulo Davim, a situação chegou ao ponto em que só uma greve pode chamar a atenção do governo. "Os profissionais estão sendo desrespeitados e humilhados, e a realidade que a gente vê de pacientes aguardando nos corredores por não terem leitos é perversa. A saúde não é uma prioridade do governo, quando deveria ser", defende.
População no prejuízo
De acordo com o presidente do Sinmed, Geraldo Ferreira, o descaso com o paciente inicia desde sua chegada até a necessidade de uma vaga na UTI. "Muitas vezes, o paciente fica em pé porque não tem cadeira. Os médicos precisam examiná-lo mas não tem sequer uma maca para ele deitar. Faltam leitos nos hospitais e no caso de agravamento o hospital não tem condições de atender à demanda. No Santa Catarina falta medicamentos essenciais para o dia a dia", relata.
Geraldo diz que no interior o quadro se agrava ainda mais, pois existe apenas um clínico atendendo toda a população, além de problemas quanto ao abastecimento e a falta de UTI. Ele conta que o déficit emergencial de profissionais em todo o estado gira em torno de 200 a 300, mas que seria necessária uma contratação de no mínimo 2 mil para que toda a população pudesse ser atendida.
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